Um encontro com Marcelo Freixo

domingo, 13 de junho de 2021

A tragédia de nosso tempo consiste no fato de que apenas o movimento eleitoral é observado com lupa pelo que restou da esquerda. Assim, qualquer movimento eleitoral – da legislação às candidaturas, das alianças ou das dissidências – recebe minuciosa atenção dos chamados dirigentes e mesmo do militante devoto enclausurado num comitê eleitoral real ou fictício. Por sua vez, o movimento das classes, da economia, da ideologia e da cultura são, quase sempre, ignorados pela esquerda que se fez liberal ao longo das últimas 3 ou 4 décadas.

A carta da vez sob severa observação é a decisão de Marcelo Freixo de abandonar o PSOL e assinar filiação no PSB. A decisão – largamente amadurecida – está orientada por óbvio fim eleitoral: eleger-se governador do Rio de Janeiro. Ora, desde que se elegeu deputado federal, Freixo abandonou o discurso centrado nas causas (racial, gênero, etc.) para assumir certa vocação universal expressa na luta pelos “direitos humanos”, o direito à vida, o direito de ir e vir, entre outros mandamentos da doutrina liberal. A decisão não é fruto do improviso e, embora marcada por contingências, ampara-se também em problemas reais que cobram solução. Em síntese, Freixo postula que o sentido da política naquele estado que outrora foi o tambor do Brasil, resume-se na luta da “civilização contra a barbárie”.

O retorno de Lula à disputa presidencial de 2022 – até agora assegurada pelos tribunais por circunstâncias políticas muito particulares que podem desaparecer – obviamente apressou a decisão de Freixo. O PSOL, no entanto, tornou-se um cobertor cada dia mais curto para as ambições de Freixo, uma vez que o partido também está fortemente acometido pelas mesmas razões que levaram o deputado carioca ao PSB. Ainda que balbuciando justificativas morais, na prática, o PSOL contesta a saída mas, na real, também tem um encontro marcado com Lula. Na verdade, o PSOL esta dividido entre aqueles que querem Lula já no primeiro turno e a ampla maioria, que votará no ex-presidente no segundo turno, caso o calendário eleitoral se confirme na plenitude.

A maioria no PSOL se inclina neste momento para fechar com Lula já no primeiro turno das eleições presidenciais. Nesse contexto, a despeito da vontade do militante socialista, o PSOL caminha para se consolidar como um “puxadinho do PT”. A decisão do diretório estadual do Rio de Janeiro em não reivindicar nos tribunais o mandato de Freixo – como também da executiva nacional do partido – obedece, finalmente, à logica dominante: todos estão, de alguma maneira, no mesmo barco.

Os desgostosos com a decisão de Freixo se limitam a reivindicar certa independência programática no primeiro turno para negociar com Lula desde uma posição de força, como se, de fato, o candidato presidencial do PT desse ouvidos à esquerda. Ora, Lula jamais ouvirá a esquerda, especialmente porque essa é cativa de sua liderança eleitoral e não possui alternativa fora de seu alcance. À maneira vulgar, Lula sabe que a polarização partidária que os educados liberais pretendem evitar obedece à lógica das situações extremas que emergiu na sociedade brasileira a partir da reeleição de Dilma. Não se pode, aparentemente, responsabilizar o PT por tal quadro, pois o partido – Dilma e Lula na cabeça – fizeram de tudo para não radicalizar, atuando sob a orientação de um espírito republicano burguês que somente existia em suas doces ilusões, num esforço quase suicida de preservar as instituições da república burguesa apodrecida que já estavam em franca decadência. No entanto, foi precisamente a tentativa de conciliar aquilo que de fato é irreconciliável, especialmente em tempos de crise, que nos trouxe aos impasses políticos atuais comandados pela ultradireita.

A consciência ingênua de Freixo consiste em supor que será possível enfrentar as milícias, o crime organizado, a corrupção e a ladroagem generalizada que afeta o Rio de Janeiro sem uma resposta igualmente radical para as consequências da emergência do capitalismo dependente rentístico do país que lá aparece sob a forma de decadência material e moral do antigo “tambor do Brasil”. Nesse contexto, alguns estados podem se defender melhor – inclusive pelo reduzido tamanho – mas tal possibilidade é vetada ao Rio que não poderá encontrar uma saída fluminense fora do contexto nacional. É doloroso dizê-lo, mas é claro que uma crise ou desgraça qualquer em Manaus ou Floripa não tem o peso de uma crise carioca.

Desde esse ponto de vista, as ilusões de Freixo que o levam a sair do PSOL não são lá muito diferentes da convicção daqueles que permanecem no partido.

Em décadas passadas, a decisão de abandonar o PSOL seria tratada como “oportunismo eleitoral”, “traição ao programa”, entre outros epítetos ainda menos ilustres. No entanto, nas circunstâncias atuais, a mudança de partido não significa a mudança de trincheira pois todos estão na vala comum da luta pela “democracia contra o fascismo”. A divergência certamente ganharia contorno mais dramático se a adesão de Freixo ao Lula ocorresse no período em que o PT estivesse no governo. A diferença agora é que o PT pode ser governo e o apetite eleitoral cresce na exata medida das pesquisas eleitorais que colocam Lula na disputa do segundo turno contra o protofascista Bolsonaro. Não resolve alertar que muitos meses se passarão até que essa possibilidade se efetue e que a crise é tão grave que tudo pode mudar. A intensidade da crise tem sido argumento precisamente daqueles que aderem sem rubor algum à enfadonha repetição da “alternativa” Lula.

A ilusão básica, comum entre os que saem do PSOL e aqueles que permanecem é, afinal, uma só: uma frente – a mais ampla possível – para enfrentar a direita, o fascismo, os milicianos, etc. No Rio – tal como manda a tradição petista – a candidatura de Lula será aquela que passar no segundo turno. Com exceção de São Paulo, o mandamento petista é um só: entregar os anéis para preservar os dedos. Em consequência, entregar a disputa nos estados para formar palanques necessários à conquista da presidência. Afinal, quando Lula não rifou candidatos próprios do PT sem cerimônia para alcançar seus fins nacionais? Ora, o Rio de Janeiro, há décadas, nunca deixou de ser mera moeda de troca de Lula nas articulações nacionais, como forma de contemplar políticos e partidos corruptos e eleitoreiros que possuem forte representação no estado.

Freixo sabe – ou vai descobrir – que Lula é treinado na arte de namorar com todos e casar com ninguém. Afinal, quem será o candidato do PSOL a governador nas circunstâncias atuais? A despeito de possíveis méritos, será alguém destituído de uma virtude decisiva: o PSOL, tudo indica, não terá candidato capaz de passar para o segundo turno. Freixo ocupará esse espaço eleitoral porque até agora expressa como ninguém a identidade do PSOL, razão pela qual, arriscará a vida para além do partido com certo conforto. Creio, nesse contexto, que Freixo revela em sua ambição eleitoral todas as misérias de um político vulgar, mas, revela também, o dilema do PSOL, que, nascido para superar o fracasso histórico do PT expresso em sua decadência moral, política e programática, se limitou tão somente a figurar como “crítico” moral da esquerda liberal cuja expressão máxima ainda é o PT. Assim, o PSOL poderá ter um encontro marcado com Freixo em poucos meses.

Há muito escuto de amigos marxistas que não há outro caminho: o povo terá que experimentar Lula novamente para adquirir consciência de suas reais limitações, pois Dilma o livrou de um juízo histórico definitivo caso ele fosse – como de fato pretendia – sucedê-la ainda no segundo mandato que, como sabemos, foi concluído na destituição. Eu entendo o argumento, mas sempre recordo que a crise atual criou novo ambiente em que a repetição da fórmula Lula não possui aderência: antes que solução, a candidatura Lula será o caminho de aprofundamento da crise social, econômica e política e, no limite, permitirá mais força ao avanço da direita. Alguém pode supor com seriedade que Lula e sua frente amplíssima apresentam uma solução para a crise terminal da república burguesa apodrecida em seus fundamentos? Afinal, Lula é capaz de elucidar os dilemas próprios de um capitalismo dependente rentístico calibrando a luta nos marcos da ordem e, sobretudo, contra a ordem burguesa? Ora, todos sabemos que não! Lula – Freixo e a maioria que permanece no PSOL – ainda acredita que a república atual possui virtudes que devem ser resgatadas e pelas quais vale a pena apostar nossas vidas. A direita encabeçada por Bolsonaro indica todos os dias o caminho da superação das misérias republicanas pela via de uma modalidade particular de terrorismo de Estado. A esquerda, ao contrário, reafirma todas e cada uma das ilusões que nos trouxeram precisamente para o beco aparentemente sem saída em que nos encontramos.

De resto, a opção por Lula – no primeiro ou segundo turno – manterá o que restou da esquerda cativo ao ex-presidente em nome de objetivos “superiores”. Aos olhos de milhões, no entanto, o apoio a Lula é a reafirmação do horizonte liberal na esquerda brasileira, algo bem distante das necessidades cada dia mais fortes e ainda pouco visíveis da revolução brasileira.

 

Nildo Domingos Ouriques

Militante pela Revolução Brasileira – SC

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