O significado do 29M: Fora Bolsonaro e a Revolução Brasileira

 A dinâmica da crise capitalista, aprofundada pela pandemia, evidenciou os grandes dramas brasileiros e deixou a classe trabalhadora diante do seguinte impasse: sucumbir sem lutar ou aceitar a luta. Ela historicamente encontrou nas lutas sociais o caminho da sua emancipação. É verdade que sucumbiu em várias delas, mas nunca sem lutar. O 29M tem o potencial de abrir um novo ciclo. Depois do último grande protesto contra a reforma da previdência, que levou cerca de 200 mil trabalhadores a Brasília, estamos diante de uma nova jornada de lutas.

 Inicialmente, o 29M foi objeto de debate da 3ª Plenária Nacional de Organização das Lutas Populares, em 11/05, contou em seguida com o chamamento da UNE em função dos cortes das verbas universitárias e por último houve a convocação da Campanha Fora Bolsonaro (uma frente que reúne organizações como Povo sem Medo e Brasil Popular, partidos políticos e sindicatos). Ainda que atravessado pelo liberalismo de esquerda, ele é a expressão da insatisfação do povo com o sistema político brasileiro.

 A ausência de Lula e Ciro, as duas principais lideranças do campo da esquerda liberal, como também o silêncio deles nas redes sociais, revelaram os passos sólidos que estão a dar à continuidade da república burguesa liberal. Arrisco a dizer que ambos, em particular Lula, deram um recado à coesão burguesa que, em um futuro governo, não entrarão em aventuras desse tipo. Todavia, a ausência e o silêncio ocultam algo não menos grave: a distância que existe entre os seus programas políticos e as necessidades existenciais de quem estava na rua.

 Não nos parece estranho pensar que, juntamente com o Fora Bolsonaro, a rejeição aos políticos da ordem tenha sido o espírito do 29M. Aliás, a degeneração do sistema político tem sido a questão do nosso tempo aqui e em boa parte da América Latina. A eleição à Assembleia Constituinte no Chile colocou os candidatos independentes, os que não possuem vínculo com os partidos da ordem, em evidência. No Equador e no Peru, o alto número de votos nulos somado à imensa insatisfação popular ao regime mostra que o povo busca uma saída radical (ainda que às avessas), para além da esquerda e da direita liberal.

 O ponto central do 29M foi, sem dúvida, a crítica ao governo Bolsonaro. Passemos, pois, à primeira questão: o que é o Fora Bolsonaro? O analista ingênuo e basbaque, jungido à polaridade política, diria que as vozes do protesto conclamaram o Volta Lula. Algo rigorosamente falso. Se é verdade que em 2018 Bolsonaro personificou a saída ao sistema político ao defender radicalmente a mudança de tudo isso que tá aí, por que não acreditar que o Fora Bolsonaro carregou no seu útero a crítica ao sistema político? Não há razão para desconfiar que o povo não tenha consciência sobre a podridão do sistema. O clamor também nos revela que por dentro da ordem não há saída segura ao povo. Essa parece ser a razão de não termos ouvido o impotente grito de “Lula Guerreiro do Povo Brasileiro”. Afinal, um guerreiro do povo, tal como os grandes líderes revolucionárias latino-americanos, não hesita em convocá-lo ao embate. Um guerreiro não foge à luta. Por mais que Gleisi Hoffmann tenha dito, dois dias depois, que o PT [e o Lula] apoiou os protestos e está ao lado do povo, a ausência e o silêncio revelam, portanto, a impotência do político vulgar, do conciliador barato disposto a qualquer coisa para servir aos interesses da coesão burguesa que nos governa.

 

Impeachment, Lula e a coesão burguesa

 É ainda perturbador observar que o Fora Bolsonaro tenha reacendido a luta pelo impeachment. Aliás, Boulos e o Psol (setor majoritário), PSTU, PCO, PCdoB e entidades populares defenderam exaustivamente o impeachment do presidente. Dois dias depois do ato, a principal figura do Psol disse no Uol (31/05/2021) que o único elemento faltante ao impeachment era a mobilização de rua e que agora, junto com o crime de responsabilidade, a queda de popularidade e a crise política, o cenário estaria montado. O psolista chegou a dizer que a deslealdade do Centrão (bloco político de direita que dá guarida ao presidente) e a fragilidade do presidente junto às Forças Armadas fortaleceriam a destituição do capitão. Na mesma linha, Ruy Costa Pimenta, presidente do PCO, disse que só com a continuidade das mobilizações seria possível enfrentar Bolsonaro. Seria mesmo assim? É razoável acreditar que tais elementos acima levarão Bolsonaro ao impeachment?

 Seja como for, a racionalidade do impeachment que ganhou forças no 29M carrega algo incômodo ao projeto eleitoral lulista, posto que o povo na rua põe em cheque as contrarreformas e sabemos, desde sempre, que Lula guarda amplo compromisso com elas. Estancar o sangramento precocemente é jogar água no moinho lulista, ainda mais quando se está convicto da fraqueza do governo. A ideia de enfrentar Bolsonaro no segundo turno é algo desejado por Lula e amplamente divulgado pela esquerda liberal. É quase certo, ao petista, que deixar o governo sangrar até a eleição é o caminho mais seguro ao seu retorno. O Fora Bolsonaro é o elemento novo vindo das ruas; já o sangrar até as eleições é a estratégia eleitoral dos dois candidatos da esquerda liberal.

 À primeira vista é contraditório a campanha Fora Bolsonaro desejar o impeachment ainda em 2021, posto que isso é visivelmente amargo às pretensões eleitorais de Lula em 2022. Todavia, ao analisar de perto veremos que de toda sorte, com sangramento ou com impeachment, as ruas parecem não ter nada para colocar no lugar. O que é certo é que a unidade política do Fora Bolsonaro, que os partidos de esquerda liberal tentam forjar no seio das mobilizações, leva todos aos braços do Lula em 2022. Portanto, não causa surpresas observar que mesmo Boulos, expressão lulista do Psol, esteja a defender o impeachment (supostamente sem o aval do seu líder) a todo custo, mesmo que para isso tenhamos que conviver com outro não menos desumano vice-presidente. A ideia ingênua e basbaque de Boulos é de que um vice-presidente submetido ao bafo do povo teria menos manobra política do que Bolsonaro. Mourão nutre considerável apreço em setores da esquerda liberal, particularmente no governador do Maranhão Flávio Dino. Quando perguntado sobre o impeachment de Bolsonaro e a possibilidade de um governo Mourão, Dino disse ao Valor Econômico de forma desinibida que se trata da civilização contra a barbárie, ou seja, Mourão representaria ao comunista a figura da civilização, obviamente.

 Nos dias que correm, a possibilidade do impeachment seria algo perigoso à coesão burguesa: oferecer as ruas ao povo em uma situação social de desespero, em que a vida se tornou um tormento permanente, pode ser fatal à estabilidade burguesa, razão pela qual estamos convictos de que a classe dominante não aceitaria. Bolsonaro ainda mantém amplo apoio da coesão burguesa, do Congresso, da mídia e é peça constitutiva do projeto do Exército. O bloco que o sustenta não dá sinais de fissuras (neste momento). Inclusive, o silêncio dos grandes monopólios de comunicação nos mostra que no essencial todos estão fechados com o governo Bolsonaro, a despeito de matérias e reportagens de conteúdos morais e comportamentais contra o governo. Se Lula se coloca à classe dominante como aquele que daria um novo impulso ao sistema político ao reestabelecer um pacto social, ao destinar migalhas do orçamento aos pobres e a criar um acervo de políticas públicas que no horizonte qualificam relativamente a vida do povo, Bolsonaro avança sem vacilar em um projeto de estado policial que, diante da agudização da crise capitalista, torna-se mais adequado ao novo padrão de acumulação em curso entre nós.

 

Protestos de rua e a Revolução brasileira

 O balanço do 29M, feito recentemente pelas organizações reitoras, dobra a aposta no Fora Bolsonaro. O ponto central da reunião realizada no dia 01/06/2021 foi a continuidade das mobilizações e a certeza de que o ato enterrou a espera agoniante das eleições de 2022. A elegibilidade de Lula, produto da manobra dos tribunais, iluminou a impotência da esquerda liberal com a mesma força que a crise abriu os caminhos para o surgimento dos protestos populares. Ainda não sabemos aonde tudo isso chegará, no entanto, é seguro que a permanência dos trabalhadores e da juventude nas ruas trará um elemento explosivo à estabilidade burguesa.

 A crise da república burguesa, na medida em que se explicita aos olhos do povo, recruta novos trabalhadores à luta. É verdade que as ilusões forjadas durante 14 anos de governos petistas ainda habitam a cabeça da esquerda brasileira, mas não é menos verdade que a consciência sobre os limites do sistema político fica cada dia mais translúcida. Como se não bastasse, temos ainda a profunda crise econômica que liquida as condições materiais de existência da maioria do nosso povo. Isso levará a uma ruptura no interior da sociedade atual. Uma nova ascensão do movimento de massas deve se iniciar nos próximos anos e abrir um novo marco no desenvolvimento operário como classe. O movimento grevista, a rebeldia e a revolta dos trabalhadores começou lentamente com a paralisação dos entregadores por aplicativos, em 2020, com o protesto das torcidas antifascistas, com os trabalhadores dos Correios que pela primeira vez na história conseguiram unir as duas federações sindicais da categoria e tende a ser a tônica de agora em diante. A crise social intensifica a guerra de classes e supor que os trabalhadores sucumbirão sem lutar é desconhecer a história. É no seio das inquietações que o Psol deve se constituir enquanto consciência revolucionária dos trabalhadores sem ocultar a pequena burguesia assalariada aturdida com a dinâmica da crise, os trabalhadores informalizados e os miseráveis do campo e da cidade, destituídos de todo tipo de amparo institucional, ainda jungidos às calamidades hereditárias e modernas reinantes, e apontar os caminhos da revolução brasileira.

 Não temos dúvida de que o Fora Bolsonaro é algo importante na atualidade, mas insuficiente diante da magnitude da crise. Ela exige mais do que o Fora Bolsonaro. Precisamos de um novo radicalismo político que atenda aos interesses do povo brasileiro. O radicalismo político não foi o que moveu o 29M e temos dúvida se moverá os atos futuros. O que não temos dúvida, todavia, é que a dinâmica da crise abrirá espaço a um novo radicalismo político. O que hoje é impossível amanhã será absolutamente imprescindível.

 Nada está definido para a esquerda. A imersão do povo na luta política é a peça que faltava. O que está definido é a guinada de Lula e Ciro em direção ao liberalismo de direita no terreno econômico com a ilusão de que podem cumprir agenda social, portanto, a fuga irreversível de ambos ao campo da esquerda brasileira. Esse cenário não deixa de ser auspicioso à esquerda radical e abre uma enorme fenda à construção da revolução brasileira.

 

Os limites da esquerda liberal

 O que não desaparece do horizonte da esquerda liberal na crise brasileira são as ilusões com o sistema político. As lideranças petistas e psolistas afirmam categoricamente que as eleições e a vitória de Lula dariam novos ares à democracia no Brasil; que a crise política se resume ao golpe de 2018 e a assunção de Bolsonaro ao governo. José Dirceu defende a tese de que precisamos reconstituir o Fio da História, segundo o petista mais ilustre, rompido em 2016. Ora, isso é rigorosamente falso. Bolsonaro é o resultado de um sistema político apodrecido. Portanto, o Fora Bolsonaro, dentro dessa lógica, deságua na recapitulação do velho programa democrático popular, com Lula na cabeça. É por tal razão que reafirmamos que o Fora Bolsonaro não deve ser um fetiche, posto que setores da direita liberal também o gritam. A fetichização do Fora Bolsonaro, o tratamento equivocado que se dá a ele, tal qual considerá-lo um espantalho político que nos provoca medo, nos imobiliza. Exigimos um ato concreto. Um ato de magnitude emancipatória. Portanto, sem a dimensão da Revolução Brasileira, o ato perde forças e se desmancha facilmente. Para a esquerda liberal dar concretude ao Fora Bolsonaro, terá que abandonar as ilusões com o sistema político e a ideia ingênua de frente democrática, algo que sabemos impensável na atual conjuntura. Aí residem os limites da luta política. Ou abandonamos as ilusões, ou elas nos tomarão por completo.

 Tudo que é sólido se desmancha no ar. A crise é a norma. Os protestos de rua terão um duplo aspecto: i) a partir deles buscaremos saídas políticas radicais e enterraremos os partidos de esquerda liberais, incapazes de enfrentar a aguda crise da república burguesa e ii) mostrarão a necessidade da revolução brasileira enquanto ato político supremo. A crise econômica e política se manterá entre nós e o rechaço ao sistema político será a norma por aqui, tal qual na América Latina. Lula e Ciro são incapazes de apontar o caminho da revolução brasileira; jungidos aos seus programas liberais, o primeiro à manobra orçamentária e o segundo ao desenvolvimentismo, enquanto fetiche, não convocam o povo e se distanciam, como a velhice da infância, das grandes tarefas da esquerda brasileira.

 Isso abre caminhos para que a Revolução Brasileira possa se diferenciar dentro da esquerda dando a linha da radicalização do debate político, a denunciar a podridão do sistema e a decadência de saídas meramente parlamentares.

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