A Geografia do Voto Nulo: o caso do Rio de Janeiro 

  O voto nulo tem sido atestado pela esquerda liberal (em especial, aquela vinculada à academia, cada vez mais irrelevante no cenário político nacional), em suas versões histéricas, como um inconsciente “suicídio” ou que atribui uma suposta equivalência aos candidatos. Aquelas mais alucinantes podem ser vistas nos comentários do tribunal de inquisição das redes sociais, onde os posts crescem tanto na frequência quanto no número de usuários que nunca se organizaram em nada e, agora, se veem no “exército” dos que recorrem ao povo somente às vésperas do pleito. É claro, há exceções. Quando são acusações diretas, o nulo é atribuído a uma opção de voto “acadêmico”, que preserva uma posição privilegiada perante a sociedade ou que pouco dialoga com as massas. Será? 

 

  Uma eleição apertada, naturalmente, desperta o interesse sobre as razões dos votos. Mais do que isso, nos últimos anos, a preocupação sobre a sua distribuição é cada vez mais evidente para compreender como as relações de poder se estabelecem no espaço através do voto. Um dos exemplos mais evidentes, no Rio de Janeiro, são os votos em territórios dominados pela milícia. Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo, somados, equivalem a quase 30% do colégio eleitoral de todo país. São Paulo, sozinha, concentra 21,48% dos eleitores do país. O Nexo Jornal publicou um mapa interativo de distribuição de votos por local de votação. A geografia dos resultados é explicativa, mas pouco surpreendente.

 

  No caso do Rio de Janeiro, o maior colégio eleitoral do estado continua sendo sua capital, com quase 5 milhões de eleitores. Em seguida, São Gonçalo (653.494), Duque de Caxias (635.079), Nova Iguaçu (615.377) e Niterói (411.407) despontam em número de eleitores. Com isso, esses cinco municípios concentram mais da metade do número de aptos a votar da Região Metropolitana. À primeira vista, o mapa dos votos nulos e brancos no Rio de Janeiro desmorona o castelo de cartas de que esse voto é acadêmico ou indistinto às massas. Pelo contrário, o voto acadêmico é predominantemente lulista. Brancos e nulos, ao contrário, são concentrados, proporcionalmente, em espaços segregados tanto da capital quanto da Baixada Fluminense. E esse não é só o caso do Rio, mas de Salvador, Brasília e, de forma ainda mais acentuada, São Paulo.

 

Mapa 1 – Votos nulos e brancos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro

 

Mapa 2 – Votos nulos e brancos na Região Metropolitana de São Paulo

 

  O padrão de nulos e brancos representa, de forma ainda mais representativa, o padrão centro-periferia característico das metrópoles brasileiras, a exemplo do Rio. Os bairros e cidades que votaram mais em Bolsonaro, em geral, anularam mais, com grande exceção da zona sudoeste “rica” (Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Barra Olímpica). Nesses bairros, o voto é uma escolha de posição de classe, representado por uma classe média alta e burguesa moradora de condomínios e loteamentos fechados. Onde Lula venceu, houve menos brancos e nulos (áreas nobres, como a Zona Sul e Icaraí). A disputa adquiriu, claro, algum contorno de classe entre esses bairros: a “velha” zona sul, proporcionalmente, deu muito mais votos a Lula, com Botafogo, Flamengo, Laranjeiras e Glória (bairro da Zona Sul até 2023) liderando o crescimento de Lula entre os bairros do Rio em comparação a 2022. Em seguida, na lista, aparece Copacabana, antes famosa por ser predominantemente conservadora, passou a dividir os votos e hoje apresenta uma clara guinada a votos progressistas. Seja como for, tanto a Barra quanto a Zona Sul e o Centro representaram, na Região Metropolitana, a menor quantidade proporcional de votos nulos e brancos. E são nessas zonas que a maior parte dos acadêmicos, da classe média alta e da burguesia residem!

 

Mapa 3 – Votos nulos e brancos no município do Rio de Janeiro

 

  Na zona norte, como a zona sudoeste exceto Barra e Recreio, os números variaram. Como na zona sul, as áreas nobres da zona norte tiveram, proporcionalmente, maior número de votos em Lula e menor em brancos e nulos. Nesta zona, destacam-se Grande Tijuca e Méier. Entre os mais característicos da classe média e acadêmica, os brancos e nulos foram mínimos (Tijuca, Maracanã e Grajaú). Aqueles menos cobiçados por esses estratos tiveram maior número proporcional de votos inválidos (Rio Comprido, Praça da Bandeira e Estácio). O mesmo pode ser visto na distinção entre Vila da Penha e Penha e na Ilha do Governador, onde os bairros com padrão residencial mais elevado votaram menos branco e nulo. No entanto, se a vitória de Lula foi mais expressiva na Zona Sul, a proporção inversa entre brancos e nulos e votos no Lula não foi tão clara na zona norte, até porque, conforme dito, a heterogeneidade sócio-espacial aqui é muito mais acentuada. Fato é que os votos brancos e nulos, outra vez, não emergiram dos espaços tipicamente ocupados pela classe média. 

 

  Na zona oeste, tanto favela quanto asfalto votaram massivamente no Flávio Bolsonaro, o que é preocupante, haja vista o peso demográfico do bairro, que é o que mais cresce ao longo dos últimos anos. Campo Grande, maior bairro da América Latina com 352.356 habitantes, garantiu a vitória de Flávio em todas as zonas eleitorais. Salvo poucas exceções em Bangu e Senador Camará, ocorreu o mesmo com o restante dos bairros. Em comparação à Zona Norte e, principalmente, às zonas sul e sudoeste, os brancos e nulos foram, também, mais expressivos. Esses espaços constituem aqueles mais segregados entre as zonas do Rio de Janeiro. E são aqueles que a direita, a cada ano, conquista vitórias incontestáveis. 

 

  No município do Rio, nulo e branco esteve mais concentrado em bairros periféricos. Onde os votos nulo e branco menos fizeram adeptos foi, pasmem, a Zona Sul carioca, área mais valorizada de toda a Região Metropolitana! Também foi a zona que angariou mais votos proporcionais a Lula. Em comparação a 2022, essa área se confinou ainda mais a esses bairros tipicamente elitizados. 

 

  Como é sabido, a Zona Sul não é o Rio de Janeiro. No município, Bolsonaro venceu. Porém, a vantagem do candidato protofascista foi ainda mais eloquente na Baixada Fluminense. Enquanto Flávio obteve 47,9% dos votos do Rio, os municípios da Baixada garantiram pelo menos 52,4% e até quase 60% de votos ao PL. Não curiosamente, a margem de votos inválidos foi clara nesses espaços. Duque de Caxias, São Gonçalo e, principalmente, Nova Iguaçu votaram mais em Bolsonaro, mas também tiveram elevado número de nulos e brancos. Nesses municípios, o voto nulo e o branco só diminuíram em seus centros, onde, em geral, se concentram estratos de renda superiores. Em Duque de Caxias, o Jardim 25 de Agosto, bairro mais nobre do município, teve menos votos brancos e nulos proporcionalmente.

 

  Portanto, associar o voto nulo a um voto acadêmico ou destituído da realidade não encontra respaldo… na própria realidade. Esses materiais dão panos para vários estudos e conclusões. A geografia do voto nulo é pouco estudada, e menos ainda considerada a título de saber as razões pelas quais há o protesto pelo voto. Recentemente, o debate foi ressuscitado, porém seus interesses e suas vias são do mesmo viés que levou a boa parte desse contingente, seguramente, a anular seu voto: procurá-los agora para convencê-los do contrário através do que os próprios defensores do voto (em Lula ou em Bolsonaro) não acreditam que vá ocorrer. Em outros termos, mudanças substanciais. Vou me restringir a somente alguns aspectos, que levam em conta a disputa que está dada hoje no pleito eleitoral. 

 

  Se tem uma lição a ser tirada da tática do desespero, simbolizada pela campanha do 2º turno, é que a esquerda vai precisar se desencastelar. Discutir com o trabalhador que foi capturado pela direita em suas diversas formas (não só eleitorais, mas pelas milícias, igrejas, tráfico) para tratar de algo substancial que foi ignorado ao longo dos últimos anos: um projeto. O debate ocorrido na Band no último domingo demonstrou, mais uma vez, que as duas candidaturas atuam não em afirmação a um ou outro candidato (muito menos em projeto), mas de negação do outro. Um caminho como esse só pode levar ao aumento da manipulação ideológica do povo brasileiro e a indistinção entre projetos com natureza de classe totalmente distinta que, se aparecem, não há armas ideológicas para decifrá-los e nem movimentos de massa que lhes deem consequência, seja pelo apoio, seja pelo combate.  

 

  A espacialização do voto nulo apresenta uma série de variáveis. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, os crimes eleitorais, dentre os quais a compra de votos, e a perpetuação de famílias no poder, constituem regra de seu cotidiano em que a esquerda vai ter que, mais do que se adaptar, combater. Existe o lado da supressão, mas a hegemonia só pode se constituir enquanto tal, além do uso da força, com a dominação no campo das ideias. E a partir do momento em que se cria um vácuo de um programa de avanços estruturais, a direita não vacila em avançar sobre os seus domínios e oferecer outras vantagens em troca da fidelidade incontestável do povo. 

 

  Seja por desinteresse, seja por rechaço ao que está aí, o voto nulo depõe a favor de uma demanda que se apresenta à classe trabalhadora: um novo radicalismo político. O mesmo vale para as abstenções, que chegaram a 21,08%, maior patamar desde 1994. Esse radicalismo não brada de Copacabana ou de Botafogo, mas do trabalhador que não se vê representado por nenhum dos candidatos ou pior: já se recusa a participar do processo eleitoral há anos, tendo seu título de eleitor bloqueado. No estado de São Paulo, aliás, segundo reportagem do jornal A Nova Democracia, esse número chega a 3,4 milhões, o que dá uma razão de 1 eleitor com título cancelado para cada 10 eleitores aptos. No Rio, são 860 mil.

 

  Os votos em Lula, desde 2022, se confinam ainda mais aos bairros nobres da cidade. A esquerda, que ganhou, nos últimos anos, ainda que represente uma perda, a associação com a Praça São Salvador de Laranjeiras, terá de pensar em como atuar nos espaços segregados disputados desde as ONGs às milícias, passando pelas igrejas – espaços esses que o grosso da classe trabalhadora vive. Para isso, a disputa ideológica está travada, e a necessidade de disputa pelo radicalismo pela esquerda e contra direita é uma necessidade de sobrevivência do nosso campo no cenário político fluminense e brasileiro. Se Lula fomenta o seu contrário através da despolitização crescente que oferece em seus mandatos e do recuo que sindicatos, movimentos sociais e outros instrumentos de luta representaram nos últimos 20 anos, a esquerda revolucionária deve romper com a sua lógica e propor um novo radicalismo político pela Revolução Brasileira!

 

André Oliveira

Militante pela  Revolução Brasileira do Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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