Por que o “voto crítico no PT” é um erro?

  Desde os tempos de Serra, Alckmin e Aécio o papo furado é o mesmo. Os defensores do “voto crítico no PT” tentam acuar a esquerda revolucionária e os setores ingênuos da classe trabalhadora com a tese de que o voto em Lula seria um mal menor indispensável para evitar o avanço das reformas da direita e garantir melhores condições de luta nos próximos anos. Como se houvesse uma observação anexa ao voto em sua contabilidade: “Este é um voto crítico”.

 

  No entanto, essa justificativa desconsidera a dinâmica real da luta de classes e a submissão do projeto do PT à ordem do capital. A disputa eleitoral polariza duas alas do liberalismo (esquerda e direita) alinhadas ao ultraliberalismo econômico e ao rentismo, mantendo a classe trabalhadora sob o jugo da superexploração.

 

  A tese de que existem diferenças qualitativas estruturais entre as candidaturas cai por terra ao examinarmos a essência de suas práticas governamentais. Enquanto o bolsonarismo aprofundou a miséria, atacou direitos e registrou 716 mil mortes na pandemia de covid-19; os governos do PT fizeram a mesma política quando impuseram novos tetos de gastos, garantiram taxas de juros recordes, impulsionaram privatizações e entregaram riquezas estratégicas como nosso solo, minérios, petróleo e agora terras raras.

 

  O resultado do primeiro turno das eleições evidencia o desastre, uma consolidada vitória da direita no Congresso (Câmara e Senado), bem como nos governos e assembleias estaduais. Sendo assim, um improvável governo Lula estaria de joelhos (sujeito a impeachment ou paralisia) ou teria que governar conforme a música da extrema-direita — ingovernabilidade essa que sequer buscaria o socorro nas ruas em sua defesa (vide atuação do PT no impeachment da Dilma; se a burguesia mandou sair, coloque o rabo entre as pernas e saia sem convocar o povo à luta).

 

  O argumento de que Lula conseguiria arbitrar melhor as tensões burguesas, como se fosse um mestre da negociação, não aponta quais setores do capital estariam em disputa e quais projetos defendem além de pressupor que no frigir dessa roubalheira um capital vai superar outro e esmagará a classe trabalhadora brasileira, como se o voto no Lula fosse interromper essa “disputa”, por isso é irrelevante para a maioria da população, cujo resultado prático já sofre diariamente: baixos salários, endividamento e desemprego estrutural que atinge cerca de 60% da força de trabalho (ILAESE). 

 

  Mais do que isso, a experiência prática demonstra que a digestão moral da pobreza promovida pelo lulismo não serve de anteparo, mas sim de solo nutritivo e gerador contínuo da extrema-direita. Podemos verificar isso no crescimento significativo da bancada do PL nessa eleição de 2026 (temos agora o maior partido de direita desde 1988; Lula cumpriu seu dever junto a seus senhores).

 

  A administração da miséria sob a roupagem do mal menor desarma a classe trabalhadora, cria desesperança e empurra as massas empobrecidas para o falso antissistema da ultradireita. Basta apontar quais propostas e programas foram colocados no debate público. A ausência de propostas sobre os temas estratégicos mesmo as mentirosas é a regra, por isso o povo vota no que menos odeia ignorando nesse critério até os casos de corrupção, pois o que são R$ 134 milhões na cueca perto dos escândalos do adversário e uma dívida pública de R$ 11 trilhões?

 

  A ilusão de que o voto crítico em Lula garante “melhores condições de luta” ignora a arquitetura do Estado burguês — onde parlamento, Executivo e tribunais funcionam como engrenagens unificadas para a reprodução do capital. Apelar para que o proletariado deposite seu voto no suposto gestor “menos pior” do rentismo equivale a pedir ao carrasco que afie a guilhotina com mais delicadeza.

 

  Para desmistificar a ideia de que é mais fácil lutar por melhores condições de vida sob o governo Lula, vejamos o contexto em que essas lutas ocorrem: Segundo relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), sob Lula, os assassinatos de indígenas subiram 22% em 2025 chegando a 258 e superaram a média da era Bolsonaro. No que tange à estatização de empresas estratégicas, nenhuma medida foi tomada: Após 3 anos de greve dos trabalhadores, Irmãos Batista concluem compra da Avibras, fabricante de armas e foguetes. Quanto à entrega das nossas riquezas: ANP realiza maior leilão de áreas de petróleo da sua história. Não restam dúvidas sobre o oportunismo e o entreguismo do PT encabeçado por Lula, o que impossibilita sustentar a tese de que seu governo representa um setor mais dócil da burguesia.

 

  Historicamente, as mobilizações autônomas só encontram espaço de viabilidade quando governos reformistas se veem acuados; no restante do tempo, essas lutas são sistematicamente coibidas, desmobilizadas ou domesticadas pela burocracia sindical atrelada ao Estado. Consequentemente, uma vitória eleitoral do lulismo atua como um poderoso agente de desmobilização social, aprofundando a subordinação da esquerda ao cretinismo parlamentar e deixando a classe trabalhadora politicamente desarmada. Apostar na estabilidade de um governo que adormece as massas com ilusões institucionais é pavimentar o caminho para a própria desgraça que se pretende combater.

 

  Por fim, a tese de que o voto crítico em Lula é compatível com a construção de uma oposição de esquerda esbarra na práxis revolucionária: não se combate a ordem burguesa legitimando os seus mais hábeis defensores institucionais. Muito menos se combateria um protofascista sem um projeto político que aposte na força das massas na luta política.

 

  O VOTO NULO ergue-se, portanto, como a recusa radical e coerente dessa farsa eleitoral, rompendo com o fetichismo do mal menor e afirmando a independência política da classe trabalhadora. Somente por meio da auto-organização nas ruas, afirmando a REVOLUÇÃO BRASILEIRA, os trabalhadores do Brasil poderão construir um programa socialista genuíno, capaz de varrer tanto as ameaças da ultradireita quanto a digestão moral da pobreza dos governos petistas.

 

 

Arthur Figueiredo Nunes

Militante da Revolução Brasileira em Santa Catarina

 

 

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Comentários

  1. Aqui vai uma proposta: a RB fazer um projeto de reforma político-eleitoral de iniciativa popular e encaminhar ao CN. Dar um prazo curto para apreciação. Se for negado, iniciar forte campanha, com o seguinte lema: “Reforma político-eleitoral já ou Boicote às eleições”. Iniciar com antecedência o movimento de boicote às eleições.

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