A música e a Revolução: afirmar o socialismo e resgatar a música popular brasileira

O estado da música: a “popularidade” pelo popular:

 Quando morreu a cantora Marília Mendonça, a indústria fonográfica conseguiu romper a última fronteira da expansão do dito “sertanejo” universitário: a zona sul do Rio de Janeiro. Nos badalados bares de Botafogo ouvia-se suas músicas sendo cantadas pela classe média em luto. O martírio da cantora era o que faltava para tocar a sensibilidade cristã da classe média carioca; mas esse foi um pequeno exemplo de algo que estava acontecendo em todo país. Em paralelo à tragédia, aqueles dias ficaram marcados por um fenômeno muito revelador sobre a dinâmica da indústria do entretenimento no Brasil.

 Conforme caía a tarde daquela sexta-feira, subiam-se as tendas do circo midiático que se seguiu naqueles dias. Dentro de poucas horas, de “jornalistas culturais” (essa figura cada vez menos relevante) a figurões da “cultura” nacional rendiam suas homenagens, afirmando Marília Mendonça como a mais moderna expressão de música popular brasileira. Entre o público, exércitos de carpideiras elevavam o caso a tragédia nacional. Não era momento de críticas – mas para o bom-mocismo liberal, quando o é?

 Passou despercebido o fato de que, dois dias antes do fatídico acidente, o CADE aprovou a venda da gravadora Som Livre para a multinacional Sony. É fato que, antes mesmo do acidente, a cantora já representava o principal ativo da Som Livre. Mas a convergência da venda, com a promoção midiática em cima da tragédia, garantiu lucros tanto do Grupo Globo como da empresa japonesa.

 No domingo seguinte ao acidente, Caetano Veloso estava no Fantástico emprestando o resto de credibilidade que lhe resta para prestar homenagens, interpretando ao vivo uma das canções da falecida. Caetano fez parte de uma geração de artistas cuja relação com a indústria fonográfica conciliou valor estético/intelectual (valor de uso) com bons números de vendas (valor de troca). Com o passar dos anos essas duas faces do produto cultural se tornaram cada vez mais contraditórias.

 Durante a ditadura militar-burguesa, a censura forçou o realismo crítico a se render à abstração metafórica. Restaurada a democracia burguesa, a alternância entre períodos de arrocho e períodos de consumo – marcados pelo rebaixamento ideológico da esquerda brasileira –, limitaram a música ora a uma celebração ingênua do consumismo, ora a uma crítica sem dentes.

 Nesse cenário, artistas daquela geração pré-64 se tornaram irrelevantes enquanto mercadorias – a não ser como traficantes de prestígio. Gostos e opiniões à parte: Marilia Mendonça precisava menos de Caetano Veloso do que Caetano Veloso precisava de Marília Mendonça. Emprestar legitimidade ao produto mais rentável foi a função que lhe restou. É a última boia a qual artistas, outrora relevantes, se agarram para sobreviver.

 O mesmo pode ser dito do jornalismo cultural que nada tem a dizer, nada tem a indicar. Estão de costas para o povo e de quatro para o capital e seus algoritmos. Perguntam-nos como contestar os números que as plataformas de streaming apresentam? Os agentes da indústria se esquivam, dizendo “entregar o que o povo quer”. Os apologistas nos acusarão de elitismo, enquanto o liberalismo de esquerda aponta para artistas que ascenderam da pobreza para o panteão das gravadoras.

 O conjunto de suas posições traduzem a forma como enxergam o povo: uma massa de ignorantes que consome qualquer mercadoria oferecida pela burguesia. A Revolução Brasileira discorda totalmente dessa postura paternalista e oportunista. O liberalismo de esquerda, rendido ao domínio econômico da indústria do entretenimento, passa a correr atrás dos artistas mais vendáveis para apoiar suas campanhas medíocres – dessa forma, confunde o popular pela popularidade. São eleitoreiros até na hora de ouvir música.

 A diferença entre popular e popularidade é precisamente o que marca a diferença entre música popular e música pop. É a diferença entre a arte pela fruição do espírito social e a arte pela produção de mais-valia. É a diferença entre o artista/classe para si, e o artista/classe em si. É a diferença entre Cartola e Luan Santana; entre Eduardo Taddeo e Gabriel Pensador; entre Jovelina Pérola Negra e Ivete Sangalo.

 

Afinal, onde está a cultura popular?

 Talvez o exemplo mais concreto de um artista popular foi Zé Coco do Riachão. Zé Coco foi marceneiro, carpinteiro, ferreiro, sapateiro e fazedor de cancelas, carro de boi, roda de rolar mandioca. Aprendeu com o pai a fazer e tocar viola. Nascido em 1912, só gravou seu primeiro disco em 1980. Viveu até seus 68 anos apenas como luthier, anônimo, construindo e consertando instrumentos musicais. Também compunha, mas muitas das suas composições acabaram se perdendo por falta de registro. Fazia música por impulso do próprio espírito e da relação com a sociedade em sua volta; tocando com frequência nas festas da sua cidade. Viveu pela música, mas não dependeu dela para viver.

 Em nada se parece com a biografia da cantora Anita. Que fique claro ao leitor, a comparação estética entre ambos os artistas é ridícula. Tampouco importa o gosto musical de cada um. Trata-se, como bem nos ensinou José Ramos Tinhorão, de compreender a dinâmica social. No caso da carioca, desde muito cedo sua carreira tem um foco empresarial muito superior ao foco artístico. Anita é uma empresária antes de ser uma artista; e uma empresária competente em gerar lucros para si e para a multinacional Warner. Aqui a música é feita para gerar lucros e nada mais. Por isso, devem surgir tão rápido quanto vão embora.

 Não somos contra o sucesso, e o artista popular, assim como qualquer trabalhador, merece receber pelo seu trabalho. Mas quando o capitalismo privilegia a popularidade contra o popular, ele distorce a cultura, engana o povo e desvaloriza o artista.

 A sabedoria popular estima que para cada 100 artistas, 2 viram celebridades. Ao menos é o que todo jovem artista da classe trabalhadora ouve dos seus pais. O povo diz isso pois sabe que o talento que carrega em si não está presente na indústria do entretenimento. Restam apenas jovens, como a pequena Larissa de Honório Gurgel, que desde muito cedo sonham com a fama antes de tudo. Todos sabemos da capacidade da indústria do entretenimento em dominar ideologicamente a classe trabalhadora. Dessa forma, o impulso que transforma Larissa em Anita não é gerado pelas suas relações sociais, mas pelas suas formas de consumo.

 Por outro lado, esses outros 98 artistas que não se tornaram celebridades encontram espaço nas linhas de produção da indústria do entretenimento. No caso dos músicos, os mais talentosos se tornam bandas de apoio das celebridades. O preço do seu trabalho é infinitamente menor do que o de um artista famoso, ainda que seu talento seja inversamente proporcional. E ainda assim, são poucos os que conseguem viver exclusivamente da música. Há muito público para pouco artista. Na medida em que o capital se consolida em monopólios, a indústria do entretenimento cria uma falsa escassez – assim como ocorre em qualquer outro ramo da indústria capitalista monopolista. Com a venda da Som Livre, as 3 maiores gravadoras do Brasil passam a ser multinacionais.

 Queremos que o leitor leve consigo esta pergunta: qual o compromisso de uma multinacional com a cultura popular brasileira? É claro que a indústria do entretenimento não se interessa em desenvolver projetos na mesma proporção em que o povo brasileiro exala seu talento. É preciso criar um exército de reserva extremamente talentoso que esteja à disposição da criatividade limitada dos dirigentes culturais da burguesia.

 No capitalismo dependente e periférico, o artista, tal como o trabalhador, está limitado ao seu papel no processo de superexploração. É claro que o talento sempre acaba transparecendo em pequenos detalhes. Mas o capitalismo limita a genialidade do povo brasileiro ao detalhe e nos remunera como menos que isso. Não há música popular dentro da indústria do entretenimento.

 Fora dela, vemos a cultura popular nas ruas, nos vagões de trem, nos bares. Rodas de samba, bandas independentes, batalhas de rima, festas populares, festas religiosas; ainda manifestam a genialidade da cultura popular. Porém, desarticuladas, estão submissas à ideologia dominante e atuam de forma irrelevante diante da força do capital. A tendência do capitalismo é se apropriar dessas manifestações, como fez com o carnaval, e como está fazendo com o rap e o funk por meio da ideologia da ostentação. Chegou a hora de erguer as barricadas em defesa da cultura popular!

 

Somente uma classe artística organizada é capaz de revolucionar o cenário atual

 Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, sem um amplo processo revolucionário na sociedade brasileira, nenhuma vanguarda artística, nenhum movimento cultural, é capaz de competir contra a força econômica da indústria do entretenimento. Dada a capacidade do capitalismo em se apropriar do trabalho alheio, nenhuma barricada cultural é intransponível. Enquanto a burguesia estiver no poder, todas as vanguardas culturais estão fadadas ao mesmo destino da Tropicália e da Bossa Nova.

 Em tempos de “realismo capitalista”, imaginar um mundo novo é um ato ingênuo ou cínico. Isto não significa que os artistas não devam tomar parte na construção do processo revolucionário. Como disse Frantz Fanon, o artista é o único agente revolucionário autorizado a lidar com utopias. Mais do que denunciar nossos opressores, é também sua responsabilidade gerar a imagem do mundo pelo qual lutamos. A máxima “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” não deve ser lida como rendição, mas como o desafio do artista revolucionário atual.

 Por isso, quando dizemos que a classe artística deve se organizar, isto não significa formar grupos culturais que vivem de quatro em busca de editais públicos. Nem grupos puramente experimentalistas, cuja produção artística está totalmente alienada das aspirações populares. Organizar a classe artística, assim como organizar a classe trabalhadora, significa organizar suas pautas em torno da revolução socialista, do movimento de massas e do partido revolucionário.

 Alguns passos já foram dados nessa direção. O PCB possui quadros cuja produção artística começa a circular fora dos espaços de militância do partido, como o MC Primitivo. Don L professa, de forma cada vez mais nítida, sua adesão ao marxismo-leninismo. Carlos Marighella estava na boca dos jovens periféricos, muitos antes de Wagner Moura se intrometer no assunto, graças aos Racionais MC.

 Diversos outros artistas se aproximam diariamente de partidos e organizações revolucionárias. Enquanto isso, as cúpulas do PT e do PSOL dividem seus garotos propaganda com o Banco Itaú e outras instituições financeiras. Tornam-se cada vez mais dependentes das Paula Lavignes e Fernandos Meirelles da indústria. Dada a capacidade de apropriação de bandeiras, não tarda o dia em que engulam também esses novos artistas militantes.

 Por isso, é preciso dar o próximo passo. Se o trabalho das organizações despertou a consciência de jovens artistas brasileiros, é preciso garantir as condições desses artistas de produzir sua arte.

 

Vida longa aos CPC’s

 Na década de 1960, com capacidade tecnológica infinitamente inferior, a União Nacional dos Estudantes foi capaz de construir os Centros Populares de Cultura. Hoje, as festas universitárias limitam-se a caixas de som que reproduzem o que há de mais gelado na indústria fonográfica e o que há de mais quente na indústria cervejeira.

 Na década de 1960, inspirados pela promessa da revolução brasileira, os CPC’s foram espaços fundamentais para a gestão daquela memorável geração de artistas. Hoje, no pântano ideológico da universidade burguesa, suas influências só se manifestam em TCC’s e teses de pós-graduação. Todas debatem a genialidade e sensibilidade daqueles artistas, todas ignoram a base ideológica que os formaram.

 Somos totalmente indiferentes às concepções estéticas do CPC – deixamos esse engodo aos acadêmicos. Nos interessa aqui a sua prática política. Pois urge a necessidade de produzir cultura feita para o povo e pelo povo. Urge a necessidade dos partidos e organizações revolucionárias se engajarem nessa trincheira. A produção de livros e textos, como material de agitação, deve ser acompanhada pela produção de músicas, curta-metragens, peças etc. Urge a necessidade de se organizar espaços para apresentação, circulação e debate dessas produções culturais; para que nasça organicamente, de uma só vez, o artista e o público revolucionário. Urge a necessidade de que essa organização, caso queira ser duradoura e realmente transformadora, esteja comprometida com a construção da Revolução Brasileira!

 

André Luis Carneiro

Militante pela Revolução Brasileira

 

 

 

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Comentários

  1. Excelente texto, camarada!! Refleti em inúmeros momentos, principalmente quanto a essa questão da infeliz função atual dos artistas outrora vanguardistas e, de certo modo, revolucionários (vulgo Gilberto Gil, por exemplo). É uma pena pensar na deterioração da música brasileira e no grave equívoco cometido pelas pessoas que rechaçam a cultura popular de fato.

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