Guerra de classes no Brasil: A ascensão do bolsonarismo e a farsa da frente ampla

Em toda guerra há apenas dois lados. Não três, não quatro, não múltiplos lados, mas apenas dois. Múltiplas forças independentes e heterogêneas podem adentrar o campo de batalha, mas ainda assim, por mais díspares e multíplices que sejam, elas terão inevitavelmente que se aglutinar de um lado ou de outro da refrega. Dois lados, dois campos, tão somente. Os neutros e indecisos, com sua vacilação e seu abstencionismo, na mesma medida em que não engrossam as fileiras do lado mais fraco, necessariamente reforçam o lado mais forte. Se em uma guerra aberta a definição dos lados é suficientemente clara, em uma guerra velada, como a que vive hoje a sociedade brasileira, as coisas não são tão simples. Quais são os dois lados em guerra? De que lado nós estamos? Quem são os nossos aliados? E, acima de tudo, quem são os nossos inimigos?

A nossa estratégia de guerra, bem como as nossas táticas em cada batalha particular, se encontram inteiramente condicionadas pela caracterização que fazemos de cada lado da disputa. Caraterizações vagas, como o amor contra o ódio, a civilização contra a barbárie, sem falar de caracterizações puramente quantitativas, como os 70% contra os 30%, ou mesmo os 99% contra o 1%, falham em servir de fundamento para a elaboração de um planejamento concreto, tanto das tarefas mais imediatas quanto dos objetivos a médio e longo prazo, tanto do esforço de recrutamento de pessoal quanto da avaliação correta das forças e armas a nosso dispor. A caracterização em voga na cena política brasileira, além daquela institucional entre direita e esquerda, tem sido aquela entre fascismo e democracia. Nesta linha, as forças liberais, tanto da esquerda quanto da direita, têm orientado toda a sua estratégia de luta no sentido de derrotar seu o inimigo comum, o fascismo, epitomizado na figura do atual presidente da República, Jair Bolsonaro.

O efeito prático do diagnóstico que aponta para uma “ameaça fascista” à nossa “democracia” é uma estratégia de frente ampla, comum entre o liberalismo de direita e de esquerda, que por ora deixam de lado as suas diferenças e se juntam em uma defesa inflexível das instituições vigentes. Por esse diagnóstico ficam também subitamente autorizadas as mais improváveis alianças, alianças que alguns anos atrás seriam condenadas por ambos os campos políticos. A frente suprapartidária pelos Direitos Já, por exemplo, reúne hoje DEM, PSDB, PT, PDT, PCdoB, entre outros partidos. O 1º de Maio deste ano, outro exemplo, reuniu Lula, Ciro, FHC, Maia, Dória e Toffoli (Boulos saindo pela tangente aos 45 do segundo tempo). E os exemplos se multiplicam a cada dia. Nem tão cedo quanto esperávamos, vemos petistas e tucanos novamente dando as mãos, e agora se juntando ao legislativo e ao judiciário; todos juntos contra a ameaça que constitui Bolsonaro à nossa “democracia”.

No entanto, para nós, da Revolução Brasileira, a guerra que hoje está sendo travada no Brasil não é outra senão a secular guerra de classes, a guerra entre burguesia e proletariado. E uma das arenas mais importantes dessa guerra se dá no âmbito ideológico. Nesse âmbito, o mais potente artifício utilizado pela burguesia é precisamente a ofuscação da linha que divide os dois lados da guerra. É dessa maneira que a classe dominante logra trazer para compor a sua infantaria uma grande parcela daquelas camadas que, por seu interesse de classe, deveriam engrossar as fileiras do proletariado. A mistificação dessa disputa, o embaralhamento da linha divisória entre os lados, e a falta de clareza e rigor científico na caracterização das forças antagônicas, são artimanhas que nessa luta ideológica a classe dominante utiliza com maestria em seu benefício. É também assim que, ao caracterizar a guerra que nos assola como sendo contra o fascismo e em defesa da democracia, os partidos de esquerda se esforçam hoje por arregimentar as suas bases para compor o exército que irá lutar pela defesa… da ordem burguesa!

Indisposta a realizar uma análise fundamentada na correlação de forças entre as classes sociais, a esquerda brasileira considera mais cômodo ressuscitar o nazifascismo para explicar o fenômeno Bolsonaro. E essa incapacidade cognitiva se explica pelo simples fato de que, para compreender corretamente a complexidade da atual polarização política, é necessário perceber, antes de tudo, que o bolsonarismo descende diretamente do fracasso histórico da própria esquerda em organizar os trabalhadores e prepará-los para a guerra de classes. Pois a ascensão do bolsonarismo só foi possível, em última instância, diante de uma classe trabalhadora em frangalhos.

 

O descenso do proletariado brasileiro

A fragorosa derrota do proletariado brasileiro inicia-se quando o Partido dos Trabalhadores, então uma vanguarda classista e de massas, abdica da sua condição de partido de classe para se tornar o partido da ordem. Deste ponto em diante, o PT não mais se dirigiria à classe trabalhadora, mas ao “povo”, aperfeiçoando com rara perícia a retórica demagógica que fala, simultaneamente, aos trabalhadores e aos capitalistas. Isso, ao proletariado, significou não só a perda real de sua vanguarda de classe, mas, o que é muito pior, a manutenção estelionatária do status de vanguarda a um partido da ordem burguesa que, mantendo o enganoso nome de “partido dos trabalhadores”, passou a usar de toda a sua influência no poder para deslegitimar o surgimento de novas vanguardas operárias e manter os trabalhadores e toda a esquerda brasileira cativos da sua política conciliatória. Aos trabalhadores do Brasil sucedeu então a mais trágica derrota que lhes poderia ocorrer: a perda da sua consciência de classe. Assim foi que, na sua derrota mais retumbante – a ascensão do petismo –, os trabalhadores enxergaram uma grande vitória.

Ao alimentar como nenhum outro governo o mecanismo da dívida pública, o PT engordou as diferentes frações burguesas, aproximando-as em torno do rentismo, e lhes conferindo uma perigosa coesão interna. Das migalhas que caiam do banquete rentista, o PT consolidou sua influência sobre as camadas mais miseráveis e despolitizadas da classe trabalhadora por meio dos seus programas de caridade, e firmou sua liderança sobre uma aristocracia sindical cada vez mais destacada das suas bases. Por fim, o PT conquistou com certa facilidade a hegemonia da produção teórica que haveria de orientar a militância de esquerda até os dias atuais, aproximando-a cada vez mais do liberalismo burguês por meio da promoção das teorias pós-modernas e das políticas identitárias, rebaixando drasticamente nesse processo também o nível de consciência política do movimento estudantil. O estrago não poderia ter sido pior.

Com o fim do período de bonança dos governos petistas, alavancado pelo ciclo econômico que começou em 2003, a crise decorrente do fim deste ciclo desencadeou em junho de 2013 uma das maiores manifestações de massas da história do Brasil. Das profundezas da nação emergiu nas jornadas de junho um movimento espontâneo composto por todas as camadas que de alguma forma foram afetadas pela crise, desde os trabalhadores assalariados, passando pelos estudantes, e abarcando amplos setores das camadas médias. Desencadeado pela reivindicação do passe livre, e pela subsequente repressão de que a manifestação inicial foi vítima, o povo foi em massa para as ruas. Milhões de brasileiros paralisaram as capitais e muitas outras cidades levando o seu protesto. O conteúdo do protesto? Indeterminado. Além da atuação de organizações pretensamente suprapartidárias, do despertar da consciência política de milhões de brasileiros, a heterogeneidade das pautas reivindicativas foi a tônica dessas jornadas.

 

(Fonte: https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/06/junho-de-2013-foi-um-movimento-politico-se-e-politico-tem-disputa-de-ideias/)
Multidão de manifestantes na frente de Palácio Nereu Ramos em junho de 2013.

 

As manifestações de 2013 pegaram de surpresa os partidos de esquerda, que foram absolutamente incapazes de disputar a direção ideológica do movimento. O fato de que no governo estava o maior partido dito “de esquerda” da América Latina, o próprio “partido dos trabalhadores”, contribuiu para a impotência da esquerda em levantar para o público a evidente relação entre a crise econômica e os levantes de massa, e forçar o movimento a revolver suas pautas em torno da questão do trabalho e, dessa forma, adquirir um caráter eminentemente grevista. Por seu lado, completamente desarmados ideológica e organizativamente, os trabalhadores assalariados em específico, e as camadas populares em geral, tornaram-se presas fáceis da manipulação midiática da direita liberal, fosse ela feita pela imprensa tradicional, fosse pelas mídias digitais.

Os notórios escândalos de corrupção em que esteve envolvido o PT, a popularidade em franca decadência do governo de Dilma, e o aparelhamento generalizado dos sindicatos e do movimento estudantil à hegemonia petista, ajudou a conferir a essas manifestações uma forte tendência de repulsão à influência partidária, sobretudo da esquerda. Um sentimento de antipetismo foi sendo insuflado diariamente pelos aparelhos ideológicos liberais e conservadores que, com perspicaz uso das técnicas de publicidade e propaganda, souberam vincular a todo tempo o PT, um partido específico da esquerda, à esquerda brasileira inteira e, no limite, equalizá-los com o socialismo e o comunismo. Ali nasceu o germe do bolsonarismo, de uma combinação entre a crescente radicalidade do povo brasileiro causada pela crise, e da total incompetência dos partidos de esquerda em dar um sentido revolucionário a essa radicalidade.

Como saldo dessa trágica passagem da esquerda pelo poder, resultou uma classe trabalhadora que não mais se reconhece como classe, que não mais se comporta como classe, e que, por conseguinte, não mais consegue representar a si mesma de maneira autônoma na arena das disputas políticas. Não conseguindo mais representar-se a si mesmos, os trabalhadores não tardariam a sair em busca de quem os representasse. Por isso, pode-se afirmar que o mais traiçoeiro feito dos governos do PT foi o de ter reduzido novamente o papel político dos trabalhadores ao de mera base eleitoral. Com os trabalhadores temporariamente fora do jogo, o antagonismo central entre burguesia e proletariado cedeu lugar a um antagonismo secundário que passou a ocupar o primeiro plano da cena política.

 

A ascensão do bolsonarismo

Iniciou-se a partir de então uma disputa pelo Estado entre uma burguesia já estabelecida nacionalmente em torno do rentismo e do agronegócio, e uma burguesia arrivista, radical, vale dizer, uma lumpenburguesia, que se aproveitou da crise política para abocanhar a sua parte do bolo. O que a esquerda liberal enxerga com perplexidade como a ascensão do fascismo, fundamenta-se, em última instância, na ascensão das frações intermediárias da burguesia, e desse agregado heterogêneo de agentes marginais e aventureiros que ela carrega junto consigo. Essa mistura de diferentes estratos sociais em transição ganha certa unidade em torno de uma ideologia tão heterogênea como seja o “bolsonarismo”. E essa burguesia emergente, com o apoio de amplos setores das classes médias e populares, possui agora um lugar no balcão de negócios do Estado.

 

Luciano Hang em uma das ações pró-Bolsonaro na Havan (Reprodução/YouTube)

 

Bolsonaro não passa de um efeito necessário deste fenômeno, da materialização ideológica desse compósito de classes que buscam seu lugar ao sol do capitalismo. À guisa de comparação, a distância material que separa a burguesia bolsonarista da burguesia liberal é a mesma que separa a Havan do Carrefour, a Riachuello das Lojas Americanas, a Record da Globo. Estamos falando, grosso modo, da disputa entre a burguesia tradicional do Leblon e a burguesia arrivista da Barra da Tijuca. A divisão intraburguesa essencial manifestada pelo bolsonarismo não é tanto horizontal, mas vertical. Isto é, ela não se dá tanto pela concorrência entre os diferentes ramos tradicionais da economia (industrial, comercial, agrário e financeiro); até porque a coesão entre as elites desses setores da burguesia já é em grande parte assegurada tanto pela orientação rentista da atual fase do capitalismo dependente brasileiro, quanto pela sua especialização produtiva em torno da agroexportação. O bolsonarismo é antes a ideologia que dá coesão àquelas camadas emergentes da burguesia que perceberam na obtenção do poder político uma maneira de aumentar seu poder de concorrência e, quem sabe, disputar a hegemonia econômica e política com a burguesia liberal. Mas essa concorrência vulgar entre frações burguesas por meio do Estado, essa disputa superficial que concerne apenas a uma ínfima minoria da população, e que não abala em absoluto a coesão geral das diferentes frações burguesas, é transmitida às maiorias como se fosse o mais crucial antagonismo da nossa sociedade, como se fosse a própria guerra entre civilização e barbárie.

 A ascensão política dessas frações inferiores da burguesia arrasta consigo amplos setores de uma pequena burguesia radicalizada pela crise, setores estes que, em última instância, formariam a base orgânica que hoje confere ao bolsonarismo um caráter de ideologia de massas. Sob a liderança política dessa burguesia arrivista, e a liderança ideológica dessa pequena burguesia reacionária, o bolsonarismo enseja também a ascensão de toda espécie de vigaristas, escaladores sociais, e refugos das camadas intermediárias da sociedade. Líderes religiosos, chefes de milícia, juízes semianalfabetos, promotores evangélicos, fazendeiros escravagistas, delegados corruptos, comerciantes emergentes, militares nostálgicos da ditadura, monarquistas nostálgicos da monarquia, ideólogos conservadores, parlamentares do baixo-clero, integralistas intempestivos, caciques e coronéis, “pequenos empreendedores”, e todo tipo de oportunistas – eis a essência disforme do grupo social cuja coesão é traduzida pela eleição de Bolsonaro.

 

Faces do bolsonarismo: o juiz, o promotor, o “filósofo”, o general, o pastor.

 

O próprio capitão reformado foi oportunista o suficiente para ir incorporando aos poucos em seu discurso as ideologias características dos grupos com quem foi firmando aliança. Com uma mistura de fundamentalismo religioso, militarismo autoritário, anticomunismo, e pitadas de teorias olavistas da conspiração, o discurso bolsonarista não só foi bem-sucedido em exercer uma função integradora dentro deste agregado social das camadas médias, como a sua aparente radicalidade logrou alcançar boa parte de uma classe trabalhadora à deriva, estrangulada pela crise econômica.

Vale notar que a popularidade de Bolsonaro depende ainda hoje essencialmente da ampla adesão ao seu discurso pretensamente radical e antissistema por parte de considerável parcela da classe trabalhadora, sobretudo daquela parcela que compõe o imenso exército industrial de reserva, vítimas do desemprego ou de trabalhos precários e informais. Neste ponto, a ideologia do empreendedorismo, que entrou pela porta da frente nos governos petistas, incutiu perfidamente nos trabalhadores mais superexplorados uma falsa identificação com os interesses pequeno burgueses, obstruindo sua consciência de classe e relegando-os à condição de mera base eleitoral a ser disputada entre a direita bolsonarista e a direita liberal. Por outro lado, vale também notar, a força política de Bolsonaro dentro do governo ainda depende fortemente do apoio crítico da grande burguesia, que, apesar de repudiar a ideologia do bolsonarismo, enxerga na sua ascensão ao poder o pretexto perfeito para tocar em acelerado passo a sua agenda ultraliberal.

Ora, é certo que esses “novos ricos” não compartilham da tolerância sexual, religiosa e cultural da burguesia liberal. Não compartilham do seu ar cosmopolita, da sua pretensa predileção pelos valores republicanos, ou da sua lucrativa liberalidade com respeito à pauta dos costumes. No entanto, ali onde concordam os burgueses, novos ou veteranos, pequenos, médios ou grandes, é onde seus interesses se chocam com os da classe trabalhadora. O ultraliberalismo une todas as frações burguesas contra o proletariado. Essa última peça ideológica do discurso bolsonarista viria junto com Paulo Guedes no pacote que firmou a conciliação entre a lumpenburguesia bolsonarista e a burguesia liberal. Muito embora essa conciliação seja recheada de contradições, encenadas semanalmente pelos embates entre Bolsonaro e Rede Globo, há uma profunda concordância entre as diferentes frações burguesas no que diz respeito à política econômica de Paulo Guedes, isto é, ao aprofundamento do subdesenvolvimento e da dependência do país. É por isso que, neste momento, os trabalhadores precisam ter clareza de que a disputa entre o campo bolsonarista e o campo liberal deixa intocada a coesão burguesa em torno do rentismo e da entrega das riquezas nacionais ao capital estrangeiro.

 

(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/07/presidente-do- itau-avalia-que-declaracoes-de-bolsonaro-nao-atrapalham-reformas.shtml)
Presidente do Itaú, Candido Bracher, diz que Bolsonaro não atrapalha
reformas, e que desemprego permite crescimento sem pressão da inflação.

 

E o que faz a esquerda diante disso? Alerta os trabalhadores de que há uma coesão burguesa no poder que declarou guerra aos trabalhadores? Não, a esquerda diz aos trabalhadores que estamos em luta contra o fascismo. Mas o trabalhador não vê nenhum fascismo; seu inimigo é de outra ordem. É a longa jornada de trabalho, é o baixo salário, é a instabilidade e a insegurança, é a exaustão física e mental, são as contas a pagar, e a falta de tempo para qualquer lazer, são as dívidas, é o desemprego, é o desalento, é a doença, é a fome; em suma, é a precariedade material, é a superexploração, é o capitalismo. Enquanto o núcleo racional (leia-se ultraliberal) do governo Bolsonaro avançou no seu primeiro ano de mandato com facilidade sobre os trabalhadores, o presidente e seu clã alimentaram diariamente a hegemonia das causas identitárias dentro da esquerda liberal. Com suas pataquadas e seus discursos chocantes, os bolsonaristas seguiram fortalecendo na esquerda o domínio da política de causas em detrimento da política revolucionária. A esquerda liberal, por sua vez, sempre que operou suas lacrações e sarcasmos, os seus escrachos e escatologias, suas sátiras e deboches, ela apenas incendiou e fortaleceu as bases bolsonaristas a cada vez que elas arrefeciam. Por trás dessa luta ideológica entre o bolsonarismo e a esquerda liberal – luta que se retroalimentava semanalmente e que beneficiou os políticos de ambos os campos – o governo seguiu com seu rolo compressor sobre os trabalhadores.

O diagnóstico da “ameaça fascista” erra, em última instância, por não levar em conta o ultraliberalismo como orientação dominante do atual governo. Não pode haver um fascismo ultraliberal. O governo do protofascista Bolsonaro não conseguirá manter o apoio das camadas populares se insistir em ser o despachante dos furiosos ataques da burguesia contra os trabalhadores. Não sendo capaz de sustentar a popularidade do seu discurso com políticas públicas em prol da classe trabalhadora, o seu projeto de fascismo à brasileira é incapaz de se realizar plenamente. Em seu caminho se encontra a lei da superexploração da força de trabalho.

Sendo assim, o que pode representar a consigna da democracia versus fascismo, senão a disputa inessencial entre frações burguesas que, em última instância, mantém intocada a lógica do capitalismo dependente brasileiro? A frente ampla contra o fascismo, na atual conjuntura brasileira, não pode significar outra coisa senão a cooptação da esquerda e de suas bases pela burguesia liberal contra a pequena e média burguesia bolsonarista! Em última instância, a luta entre democracia e fascismo significa na prática a disputa intraburguesa pelo arregimento da classe trabalhadora para um ou outro lado da briga. O caráter farsesco da “ameaça fascista” e da “defesa da democracia” começa a ser revelado a partir do momento em que, durante o período de pandemia, os trabalhadores e a esquerda, mesmo sob o risco de contágio, voltam a tomar as ruas contra o fascismo e entram em combate com as forças… da democracia!

 

Contra o fascismo e pela democracia (?)

Os atos das torcidas antifascistas na primeira semana de junho deste ano renderam duas valiosas lições à esquerda brasileira. A primeira delas foi que as manifestações populares não esperariam até o fim da pandemia para despontar nas ruas, mas surgirão espontaneamente mesmo durante o surto, com ou sem o chamado das organizações de esquerda. Já antes de explodirem as manifestações antirracistas nos EUA, e já há um mês havendo o monopólio das ruas sido prerrogativa das temerárias, porém inexpressivas, manifestações da pequena burguesia bolsonarista, as torcidas organizadas, especialmente a Gaviões da Fiel, começaram a colocar o seu bloco na rua e a organizar demonstrações. Mesmo tendo como motivação explícita botar os bolsonaristas para correr, e mesmo havendo a formulação dessa motivação assumido a forma da luta contra o fascismo e pela democracia, a extração majoritariamente proletária desses blocos mandou um recado direto para os elementos pequeno burgueses que hegemonizam as direções dos partidos de esquerda, a saber, que a classe trabalhadora nunca saiu da rua, que a ela em nenhum momento foi concedido o privilégio do isolamento social, e que se ela se encontrava exposta cotidianamente ao contágio do vírus a fim de cumprir a sua jornada diária de trabalho, pouca diferença lhe faria o risco da exposição ao contágio a fim de cumprir a tarefa muito mais nobre de acossar as manifestantes bolsonaristas.

A segunda lição dada pelas torcidas antifascistas aos partidos de esquerda, e talvez a mais valiosa, foi a de que não há fascismo! Foi a lição de que toda aquela histeria em torno das tropas bolsonaristas, dos treinamentos paramilitares, dos “300 do Brasil”, dos neonazistas confessos que pipocavam aqui e ali com suas suásticas e rotinas declaradamente fascistas; em suma, que todo o pânico deflagrado por uma esquerda sem bússola, desorientando terrivelmente as suas bases, era, ao fim e ao cabo, inteiramente infundado. Houvesse de fato “hordas fascistas”, como eram os camisas negras na Itália, houvesse de fato uma massa neonazista que, como na Ucrânia, jamais evitara o confronto aberto, o que veríamos na Av. Paulista no dia 31 de maio seria um embate violento entre forças fascistas e forças antifascistas; e o que veríamos nas manifestações antifascistas do domingo do dia 7 de junho, seriam atentados fascistas contra os atos. Mas o confronto que vimos em toda parte não foi entre fascistas e antifascistas, mas entre as forças antifascistas e… a Polícia Militar!

 

(Fonte: https://fotos.estadao.com.br/galerias/fotografia,imagens-de-31-de-maio,41969)
Manifestante contra Bolsonaro entram em choque com a polícia na Av. Paulista.

Os manifestantes antifascistas acossaram belamente os bolsonaristas, no entanto o fizeram em defesa do Estado democrático, o mesmo Estado democrático que, ao fim, lhes sentou o sarrafo em defesa dos bolsonaristas. Em suma, não há fascismo, o que há é o bom e velho Estado democrático de direito, com as suas forças repressivas já de há muito conhecidas pelos trabalhadores. O que houve foi o mesmo aparelho repressivo que aterrorizou as manifestações de 2013, e que em toda e qualquer greve arrepia, prende e mutila os trabalhadores. Não há fascismo; o que há é o Estado burguês despido do seu véu republicano, é a ditadura aberta da burguesia contra o proletariado. Não existe nenhuma diferença essencial entre o Estado burguês dos governos petistas e o Estado burguês do governo Bolsonaro. Acaso Dilma também era fascista? Não há fascismo; o que há é o capitalismo dependente brasileiro, em cujos períodos de crise nunca hesitou em apertar a repressão contra os trabalhadores superexplorados. Em suma, não há fascismo; o que há é a luta de classes.

É precisamente nesta conturbada conjuntura que despontam as manifestações dos entregadores por aplicativos. Diferentemente das demonstrações cosméticas e performáticas, antirracistas e antifascistas, puxadas pela esquerda pequeno burguesa de domingo a domingo, os trabalhadores de aplicativos conferiram um caráter inapelavelmente classista às suas mobilizações ao fazer aquilo que os partidos de esquerda e os sindicatos deveriam ter feito desde o início do período de pandemia: a convocação de uma greve! No entanto, como símbolo da tragédia que representa o equivocado diagnóstico da “ameaça fascista” por parte da esquerda, temos hoje um coletivo de trabalhadores de aplicativos que, em seu conteúdo intrínseco, levanta pautas eminentemente trabalhistas e, em seu discurso, apresenta uma clara perspectiva de classe, mas que, por outro lado, em sua apresentação formal, se declara como antifascista! Tamanho é o desserviço que presta a esquerda liberal hoje na luta dos trabalhadores.

Se as forças de esquerda que apontam para o aparecimento do fascismo em cada esquina realmente acreditassem nesse diagnóstico, saberiam a partir do mais despretensioso apanhado histórico sobre as lutas antifascistas que a violência tipicamente fascista, praticada por hordas organizadas, só poderia ser derrotada nas ruas, não no parlamento; só poderia ser derrotada por meio de violência, não do voto; só poderia ser derrotada por uma frente composta pelas frações mais conscientes da classe trabalhadora, não por uma frente partidário-eleitoral. Acreditar que uma frente eleitoral, ou meramente partidária, sem o apoio da classe trabalhadora, possa derrotar o fascismo, é zombar da história e de qualquer um que tenha dela o mínimo conhecimento.

No entanto, há que se deixar muito claro duas coisas. Em primeiro lugar, que não haja fascismo hoje no Brasil, e de fato não o há, isso obviamente não implica que não exista o perigo do fechamento do regime, da transição em direção a um Estado policial. Ora, um Estado não precisa ser fascista para ser autoritário; os longos anos em que povo brasileiro sofreu com a ditadura militar nos mostraram isso. E, em segundo lugar, se uma análise concreta das forças sociais no atual momento histórico do Brasil fosse o verdadeiro objetivo teórico das forças de esquerda, o uso ou não do termo “fascismo” para caracterizar a situação atual não faria a menor diferença. O uso ou não do termo “fascismo”, enquanto categoria analítica, é muito menos importante do que uma caracterização correta do fenômeno em questão baseado na concretude da atual fase da luta de classes no Brasil. Chame de fascismo, não chame de fascismo, mas analise o que de fato está ocorrendo; pois é apenas com base nessa análise que a estratégia e as táticas de enfrentamento devem ser elaboradas. Agora, usar o fascismo como uma categoria vazia, meramente discursiva, sem nenhum conteúdo concreto, sem nenhuma análise da atual conjuntura brasileira com base na luta de classes, ou não passa de ingenuidade e indigência teórica por parte da esquerda, ou não passa de canalhice e oportunismo eleitoreiro. Tanto num caso como no outro, a classe trabalhadora está em maus lençóis.

Por fim, há ainda a ladainha da democracia. “Defendemos a democracia!”. Mas de que estamos falando realmente aqui? “A democracia está em risco!” Mas o que é exatamente que está em risco? Que direitos os moradores de favela correm risco de perder? Que direitos os trabalhadores informais correm o risco de perder? Que diretos restaram à classe trabalhadora? Que apelo pode haver ao grosso do povo brasileiro a defesa da democracia?! A defesa da democracia, no contexto atual, não pode ser senão a defesa deste sistema político concreto que está aí, não pode ser senão a defesa do modelo “petucano” de conciliação de classes, não pode ser senão a defesa das instituições atuais, deste Congresso, deste STF, destes monopólios de imprensa! Mesmo que aquela democracia que muitos cidadãos bem-intencionados creem estar defendendo seja uma democracia ideal, sejam valores e princípios abstratos, a fileira que engrossam é a da defesa de “tudo isso que está aí”! Trata-se da defesa do mesmo sistema que se encontra eivado até as entranhas de práticas corruptas, do mesmo sistema cujo processo eleitoral viciado enseja sucessivas vitórias aos representantes da classe dominante, do mesmo sistema cujos aparelhos repressivos aterrorizam as camadas populares diariamente, do mesmo sistema que, por si só, vem despedaçando cada um dos direitos e garantias conquistados historicamente pela classe trabalhadora. Defender a democracia, nessas circunstâncias, é defender o sistema político atual, e nenhum outro!

Se a frente ampla, contra o fascismo e pela democracia, é hoje amplíssima, contando com FHC, Luciano Huck, a família Marinho (Globo) e a família Setúbal (Itaú), a questão que se nos coloca é a seguinte: quem sobrou para lutar contra? Contra quem pode ser essa frente? As respostas dadas, na medida em que elencam abstrações como “contra o fascismo”, “pela democracia”, “contra a extrema-direita”, em “defesa das instituições”, tem como função apenas ocultar que o verdadeiro inimigo que resta a ser combatido por essa frente ampla-amplíssima é apenas um: a classe trabalhadora!

 

É tempo para a Revolução Brasileira

Estamos diante de uma realidade social concreta, onde o ocupante do principal cargo do executivo da nação mobiliza um número considerável de apoiadores fiéis em torno de pautas conservadoras e autoritárias. A sua notória nostalgia com relação ao período da ditadura, seu flerte despudorado com a possibilidade de um novo regime militar e ditatorial, sua política genocida diante da pandemia, bem como a boa recepção do seu governo em meio a sua massa de apoiadores, são fatos que simplesmente não podem ser ignorados. Sem dúvida alguma, Jair Bolsonaro deve ser combatido e derrubado, juntamente com tudo o que ele representa. Mas de que adianta derrubá-lo se agenda ultraliberal da coesão burguesa permanecer incólume?

O povo brasileiro anseia por uma ruptura radical. Cem vezes mais à esquerda do que os próprios partidos de esquerda, o povo não mantém nenhuma ilusão no atual sistema político. Enquanto Bolsonaro, ainda que de modo farsesco, for o único a propor uma ruptura, enquanto ele for o único a apresentar um discurso antissistema, e enquanto a tática da esquerda for se juntar a toda a escumalha pútrida e corrupta que assaltou os cofres públicos, que engordou os bancos, e que sempre atacou a classe trabalhadora, a popularidade do protofascista ganhará sobrevida. Não é por outro motivo que a esquerda desapareceu do palco principal da disputa política. O papel de oposição à direita bolsonarista é hoje ocupado pela direita liberal, da qual a esquerda se tornou um reles puxadinho. De tal forma que, ou a esquerda radicaliza seu discurso, apresenta ao povo a sua própria perspectiva de ruptura, e resgata a herança revolucionária a qual ela há muito renegou, ou ela pode fechar a loja.

Estamos diante de uma brecha. Abriu-se uma fissura no sistema. A crise econômica global, a crise do sistema político brasileiro, e a tragédia da pandemia, expôs a todos as entranhas do capitalismo. A única saída é revolucionária, é a Revolução Brasileira. Vivemos um período de transição flagrante. A tentativa de parar a roda da história, ou de fazê-la rodar para trás, para uma suposta “era dourada” do petismo, será a morte da esquerda. E é a classe trabalhadora quem pagará o preço. Logo, é precisamente para a classe trabalhadora que a esquerda deveria se voltar nesse momento, para promoção da sua independência organizativa, da sua consciência de classe, da sua vocação revolucionária. Pois o dilema colocado hoje para a esquerda é unicamente este: ou revolução socialista, ou contrarrevolução burguesa.

 

Texto* de Rômulo Corrêa
Filósofo e Militante pela Revolução Brasileira no Rio de Janeiro

 

Comentários

  1. Camarada, compartilharei num formato de série nas redes da Revolução Brasileira Curitiba. Marcarei o camarada nas postagens para acompanhar e dar as orientações que considerar necessárias. Parabéns pelo texto, excelente!

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