Carnaval Carioca, Cultura Nacional e Revolução Brasileira

Carnaval Carioca, Cultura Nacional e Revolução Brasileira

 

  O atual carnaval carioca é uma festa da burguesia na qual o povo participa. Não o que ainda resta da festa popular, desinteressada, espontânea, mas o carnaval oficial, ou, pegando emprestado um termo do nosso deputado Marcelo Freixo, o carnaval “negócio”, a atual expressão dominante da festa popular.

  Diferente de eventos mais diretamente identificados com a classe dominante, onde as classes subalternas participam apenas compondo o quadro do serviço base, obscurecidas pelas luzes do salão, no carnaval atual nosso povo aparece sob os holofotes, desfilando na avenida, porém não é mais o dono da festa: enredo, destaques, fantasias, letra, música. A elaboração do conteúdo da festa é hoje tarefa de profissionais especializados que a concebem, em grande medida, segundo critérios comerciais e políticos. Nada mais óbvio, já que se trata de um empreendimento encabeçado pelo consórcio LIESA/Rede Globo, ou, como diria Marcelo Freixo, um “megaevento”, atividade que tem papel central no processo de acumulação capitalista atualmente dominante.

  Se décadas atrás a burguesia nacional se satisfazia em extrair a riqueza do trabalho de nosso povo, hoje necessita também extrair riqueza de sua cultura. No entanto, se a absorção do trabalho no processo de acumulação capitalista gera uma aberta e clara oposição de classe, a absorção da cultura nesta mesma dinâmica produz um embate de classe menos nítido. E aí reside o ardil: o carnaval oficial é um evento da classe dominante, mas que possui identidade popular! Tal fato é crucial, pois propicia a concepção errônea de que seria, portanto, papel da esquerda tomar partido num evento dessa natureza.

  Recentemente a prefeitura do Rio de Janeiro publicou vídeo institucional onde afirma, justificando a redução nos gastos com o carnaval oficial, que o recurso público do município deve ser destinado à educação infantil, ao pagamento do funcionalismo e dos aposentados e não ao carnaval, o qual a própria prefeitura denuncia ser um empreendimento milionário encabeçado pelo consórcio LIESA/Rede Globo. Com orçamento reduzido, a prefeitura se justifica atacando o consórcio, parte da fração burguesa justamente oposta às frações representadas pela prefeitura. Sabemos que Crivella é cúmplice da situação calamitosa pela qual passa o funcionalismo e a educação municipal. Sabemos também que a maioria dos megaeventos que acontecem anualmente na cidade do Rio de Janeiro, que rendem enorme lucratividade à burguesia local sem se reverter em melhoria às condições de vida do povo carioca, não podem acontecer sem o apoio e recurso da prefeitura. O discurso contido no vídeo institucional é, portanto, cínico, parcial e enganoso. Porém, parte dele é fiel à realidade. Não é necessário economista ou antropólogo especializado. Um mínimo de dados e números bastam para a percepção clara de que o carnaval carioca oficial é algo onde nossa cultura popular é simplesmente o mote para um grande evento comercial das elites. Por isso, a despeito da política nefasta do prefeito, o vídeo da prefeitura encontra repercussão na população.

  Em resposta a esse vídeo, o vereador e liderança do nosso partido no Rio de Janeiro Tarcísio Motta também lançou um vídeo nas redes sociais de seu mandato. Tendo a chance, a partir da brecha aberta pelo discurso cínico do prefeito, de denunciar seu comprometimento com a classe dominante e, sobretudo, de aprofundar a crítica ao carnaval “negócio”, encabeçado pela LIESA – uma associação comercial que trafica a cultura nacional, composta em grande parte por criminosos – e pela Rede Globo, esse poderoso conglomerado midiático tão danoso ao povo brasileiro, Tarcísio preferiu, simplesmente, defender o carnaval oficial tal qual ele é.

  Contra Crivella, nosso vereador se ateve a alguns pontos: o primeiro na falsa declaração em relação aos valores do recurso destinado ao carnaval, onde Tarcísio abdica de dizer que em qualquer governo comprometido com o interesse popular o gasto público destinado a um evento da natureza de um carnaval “negócio” deveria ser zero. O segundo na afirmação de que “Crivella não gosta de carnaval”, onde Tarcísio despolitiza a questão, levando-a para o plano da moral. O terceiro na afirmação de que “Carnaval é um direito”, onde nosso vereador trata de modo ingênuo uma questão central: o carnaval, festa popular, é manifestação da cultura brasileira, parte da alma de nosso povo, elemento de nossa soberania cultural, algo que é assunto de Estado da mais alta importância e não questão meramente normativa. No quarto ponto Tarcísio afirma que “o carnaval é uma oportunidade para tentar sair da crise”, fazendo referência à economia criativa, essa concepção que justifica a cultura na medida em que esta pode se converter em bem explorável comercialmente, ignorando que a cultura não se justifica por gerar riqueza, emprego, mas por ser parte da identidade nacional de um povo.

  As acusações e argumentos do nosso vereador contra o prefeito se revelam inconsistentes pois, ao final, este usa seu mandato para defender algo indefensável: o carnaval oficial, o carnaval/megaevento, o carnaval da LIESA e da Rede Globo. Em sua declaração, Tarcísio leva nosso partido a uma aliança tácita, no Rio de Janeiro, com uma fração burguesa deletéria e com um projeto cultural antipopular.

  A despeito de sua respeitável história enquanto militante de nosso partido, Tarcísio Motta nos leva a essa posição errônea porque permanece preso às ilusões do pacto de classes, do moribundo sistema PTucano, que incutiu à esquerda o horizonte máximo da “governabilidade” dentro da ordem. Aprisionado por essa concepção, Tarcísio só pode procurar se aliar a alguma fração burguesa para tentar combater outra, sem compreender que, no essencial, a burguesia está unificada e que ela própria pôs fim ao espaço para a “governabilidade” quando destituiu a presidente Dilma e iniciou uma guerra de classes contra nosso povo. Nosso vereador deve compreender que agora a única opção para a esquerda é propor uma ruptura, pensar a Revolução Brasileira, sob pena de perder completamente a confiabilidade da maioria da população.

  Não é do interesse do povo carioca, e portanto, do interesse do PSOL Carioca, a defesa de quaisquer megaeventos que promovam a apropriação da cultura popular para fins de acumulação privada. A prefeitura deve constituir uma política cultural independente, que financie através de recurso público direto as manifestações autônomas da cultura carioca, inclusive as escolas de samba em sua totalidade, e não somente aquelas que integram o monopólio ligado ao carnaval “negócio”.

 

É preciso devolver o carnaval ao povo carioca!

Adiante!

 

Coordenação Estadual pela Revolução Brasileira – Rio de Janeiro

 

 

Comentários

  1. Como paraíbano, sei bem o que transformar um bem cultural de altissíma importância social em um “megaevento” lucrativo e que, para chegar a tal, vale tudo, inclusive assimilar a cultura alheia para fazer “bombar”[os bolsos] os eventos privados no São João.

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