A fuga de Flávio Bolsonaro

  Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos três dias depois de ser derrotado no segundo turno pelo presidente Lula. As últimas notícias sobre a fuga dão conta de que Flávio Bolsonaro contou com a ajuda dos presidentes Milei, da Argentina e de figuras ligadas a Trump. Não é difícil perceber, portanto, que não se tratou de um ato de desespero diante de uma provável prisão aqui no Brasil, ou ainda, de um ato de covardia (embora estejamos a falar de indivíduo muito desprezível). Ainda que isso possa ser verdade, do ponto de vista político explica pouca coisa.

 

  Estamos convencidos, ainda mais agora com o desvelar dos fatos, que se tratou de uma ação política bem pensada pela família Bolsonaro e aliados próximos. Ora, ficar no Brasil com pouca capacidade de convocação e com chances claras de ser preso ou fugir aos EUA e atuar politicamente no coração do império – junto a assessores e congressistas reacionários e contar com eventuais ajudas de Trump, escolheu a segunda alternativa. Flávio Bolsonaro se somará a seu irmão e o primeiro passo foi colocar-se como vítima do sistema político. A Carta enviada, se declarando, primeiro como “presidente eleito” e depois como “líder”, mostra os traços do mapa tático que adotará de agora em diante. É claro que Lula é vassalo do imperialismo e nada (exatamente nada!) dificulta as negociações com Trump, todavia, ter uma figura com Flávio Bolsonaro ao dispor do imperialismo pode trazer problemas ao governo.

 

  Não me parece equivocada a seguinte pergunta: qual a diferença entre a prisão de Lula de 2018 e a fuga de Flávio Bolsonaro? O primeiro, atuando por dentro da ordem, entregou-se com a premissa de que provaria a sua inocência. Tirar Lula das eleições e recolocá-lo em seguida é resultado do mesmo movimento provocado pela crise brasileira — assim como a fuga de Flávio pode encontrar sua recondução no amanhã. Ambos são expressões das contradições autorreveladoras da república burguesa.

 

  Seja como for, com a fuga de Flávio Bolsonaro abre-se uma avenida para que Lula caminhe ainda mais à direita a fim de enfraquecer o núcleo dos liberais conservadores – tudo isso mediante acordos e cargos ministeriais e, fundamentalmente, reforçando o programa da economia política do rentismo. A manobra lulista já está em andamento, na medida em que a coesão burguesa necessita de estabilidade e, neste momento, descarta aventureiros reacionários. Essa lógica, aliás, não é novidade. Desde 2021, a burguesia brasileira deu a ordem a Bolsonaro quando disse, diante das atrocidades da pandemia – “vacine o povo e aplique o Custo Brasil.”

 

  Trata-se, sem dúvida, de garantir que a estabilidade burguesa (acumulação capitalista e superexploração) se dê no curso “normal” da república rentista. Ao afastar todo tipo de aventura reacionária da ultradireita, a coesão burguesa que governa o país desde 1994, ilumina os caminhos e apressa os passos do governo Lula rumo ao núcleo duro da direita no congresso. A solicitação do passaporte ao protofascita não foi um mero procedimento jurídico de Alexandre de Moraes; tratou-se de uma ação alimentada pela conjuntura que não mais necessita de um reacionário vivo politicamente e supostamente disposto a comandar os quase 60 milhões de pessoas de perto.

 

  Há aqueles que afirmam que ele saiu desmoralizado. Não tenho dúvidas. Mas temos que levar em conta que uma república apodrecida: o desmoralizado de hoje pode ser o moralizado de amanhã. Faz parte das repúblicas liberais burguesas a criação de reservas liberais e reacionárias sempre dispostas a voltar à cena.

 

  Flávio dobrou a aposta. Uma cartada bem complicada. Nesse momento, diante da força da coesão burguesa, pode ser uma “carta fora do baralho”. No entanto, o provável agravamento da crise brasileira pode reconfigurar essa capacidade. A fuga de Flávio Bolsonaro nos leva à figura do pai. Bolsonaro ainda é um líder político. Segundo Tarcísio de Freitas, “o maior líder da direita”. Não se deve subestimar a figura de um líder político, de direita ou de esquerda; conservador ou revolucionário.

 

  Nesse momento parece que a conjuntura nacional caminha rumo à reconstituição dos valores liberais por meio de um movimento de conciliação nacional proposto por Temer ou nos marcos de um grande acordo com já está em gestação no congresso. Alcolumbre, com vistas a se reproduzir na presidência do senado está a propor um grande acordo envolvendo os três poderes. Pacificação nacional. Claro, que isso contaria com o indulto de Bolsonaro e zero ameaça a impeachment aos ministros.

 

Governo Lula e a fuga

  Não causa espanto que o antídoto à carta tenha vindo do impoluto Michel Temer com o pedido de pacificação do país. Ora, Temer já percebeu o tamanho do buraco em que estamos e que diante da crise da república burguesa aposta em um grande movimento de conciliação nacional. A esquerda liberal acredita que Lula ouvirá o povo. A sua frase na Avenida Paulista, horas depois do resultado, encheu os lulistas de entusiasmo. Afinal, o que significa dizer que “essas eleições me ensinaram muita coisa. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar o país”? A promessa é tão genérica quanto falaciosa. Lula tem diante de si talvez o pior momento dos seus três mandatos.

 

  O sonho do povo não cabe no governo lula. A velha frase de que a decepção das massas se traduziu em passividade não tem mais espaço na conjuntura. A insatisfação, seguramente mais radicalizada, ficará em disputa. A fuga de Flávio Bolsonaro aprofundará o abismo, os limites históricos, do governo Lula perante o povo. O “tesouraço”, que nada mais é senão o aprofundamento da guerra de classes contra o povo, redefinirá ainda mais as chamadas políticas sociais de caráter filantrópico do governo. Aquilo que já estava aquém da garantia de dignidade, ficará ainda mais limitado: como pode ser observado na fala da ex-ministra Simone Tebet sobre a Desindexação das Receitas da União, aliás, uma ação fiscal de longa data; que acompanha todo os governos petistas.

 

  A mesma manifestação popular que livrou o governo Lula de uma segunda derrota histórica lá na frente cobrará o seu preço. O protesto que ontem salvou o governo pode ser o mesmo que virá a derrubá-lo.

 

Dauto da Silveira
Militante pela Revolução Brasileira em Santa Catarina

 

 

 

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