Manifesto pela Revolução Brasileira

A atualidade da Revolução Brasileira

A sociedade brasileira vive uma verda­deira guerra de classes. Guerra declarada pela classe dominante, que bombardeia diariamente o povo brasileiro sem encon­trar grande resistência. Refém do projeto conciliatório e desarmados ideologicamen­te, os setores populares encontram-se em completa desorientação e são incapazes de reagir e apontar qualquer saída ao povo brasileiro. O contra-ataque só se mostra possível mediante um acerto de contas com o passado.

Esta guerra de classes contra o povo come­çou entre 2014 e 2015, quando Dilma abriu a primeira fase do “ajuste fiscal” e colocou restrições de acesso ao abono salarial, se­guro-desemprego, seguro-defeso, pen­são por morte e auxílio-doença, tudo isso acompanhado do maior corte de gastos da história do país, que paralisou a economia e deu o gatilho para a escalada do desem­prego. Em 2016, a artilharia de Michel Te­mer veio ainda mais reforçada, com o con­gelamento de gastos sociais por 20 anos, o fim do regime de previdência pública e a virtual supressão das leis trabalhistas. Está em curso a operação que desvia mais ainda a riqueza nacional diretamente para o bol­so dos capitalistas, proprietários dos car­téis da corrupção que comandam o país. Combinados, o programa de Dilma/Temer dos últimos 3 anos produziu colossal massa de miseráveis no Brasil.

O pretexto para realizar estes ataques aos trabalhadores é a crise. Nela cabem os mais cândidos discursos republicanos e a preocupação com o futuro do país por par­te dos políticos profissionais. No entanto, sabemos que não há dois Congressos: os deputados e senadores que votam siste­maticamente o enforcamento da classe tra­balhadora são os que mostraram suas vís­ceras à população na fatídica votação do processo de impedimento de Dilma Rous­seff. Trata-se de um parlamento corrupto e na sua maioria absoluta identificada com os ricos (latifundiários, banqueiros, industriais e comerciantes). Enfim, um parlamento do­minado pela classe dominante. Até mesmo o sujeito mais distante da vida política sabe que o Congresso Nacional é, nas condições atuais, um verdadeiro covil de ladrões, sem a menor autoridade moral para votar qual­quer matéria de interesse público.

Michel Temer, o atual presidente, foi colo­cado na linha de frente num compromisso do PT/PMDB pela classe dominante para gerenciar a artilharia pesada dos financia­dores de campanhas, dos sonegadores de impostos, dos políticos e empresários in­vestigados pela Polícia Federal e dos ren­tistas do sistema financeiro contra o povo.

A gravação das conversas entre Sérgio Machado e Romero Jucá nos lembra que a guerra contra a classe trabalhadora não pode prescindir de um pacto com o Supre­mo Tribunal Federal. A suspeita morte de Teori Zavaski enquanto viajava num jatinho com um empresário-réu no STF e a esco­lha de Alexandre de Moraes para a mais alta corte do país não deixam dúvidas de que o poder judiciário está blindado à com a podridão da política brasileira. Muito me­nos deve-se alimentar esperanças de que um grupelho de promotores do Ministério Público Federal possa realmente ser capaz de “passar o país a limpo”.

O fato é que o sistema político brasileiro se mostrou incapaz de renovar-se e de ofere­cer respostas satisfatórias à crise atual. Es­gotou-se a capacidade de reorganizar um pacto de classes, aliado ao fato de que os três poderes estão atravessados pela cor­rupção, e pelo aprofundamento do caráter de classe do Estado. As acusações de cor­rupção estão bem documentadas na maio­ria dos casos. Trata-se de uma crise termi­nal deste sistema político. Como tal, não passa de ingenuidade pensar que um novo processo eleitoral seja capaz de recuperar automaticamente a legitimidade do siste­ma diante das massas. A natureza especi­fica da crise atual exige um contra-ataque que deve ir além dos limites praticados pe­las classes subalternas até o momento.

A gravidade do momento tampouco nos permite aceitar novas ilusões e oportunis­mos. Preocupado em garantir cargos nas Mesas Diretoras, Lula flertou com o apoio a Rodrigo Maia e Eunício de Oliveira para as presidências da Câmara e do Senado. Suge­riu que se abandonasse o discurso contra o golpe e, numa insuperável demonstração de sua vulgaridade política, deu conselhos ao corrupto Michel Temer durante as visitas da comitiva presidencial após a morte de Ma­risa Letícia. O que era “Fora Temer” foi de­sautorizado por Lula e convertido em: “Me chama, Temer”. Como parte integrante e personagem central, metido até as vísceras com um sistema político apodrecido, Lula jamais poderá representar a sua redenção.

O Brasil enfrenta uma encruzilhada em sua história. É uma batalha pela soberania na­cional: permaneceremos controlados por um pequeno grupo de interesses comple­tamente alheios aos da maioria do povo? Com a crise, abriu-se um espaço para o ra­dicalismo de esquerda como há muito não existia no Brasil: é chegada a hora de subs­tituir um sistema político falho e corrupto, por um governo de compromisso e voca­ção revolucionários.

As grandes nações do mundo nunca se furtaram a passar por processos revolucio­nários. Os países hoje avançados foram os que tiveram coragem para incluir capítu­los revolucionários em suas histórias, cujas classes subalternas disputaram o protago­nismo dos processos políticos nacionais.

O Brasil não faz parte deste clube. Por aqui, as grandes transformações sociais sempre ocorreram sob a bandeira da prudência e da conciliação. Foi assim para a Indepen­dência, mantendo a família real portugue­sa no comando da nação; foi assim para a abolição da escravatura, só libertando os negros por completo quando já se havia importado o número suficiente de euro­peus e já se havia garantido que os futuros ex-escravos não teriam acesso à proprie­dade; foi assim para sair da ditadura civil­-militar, com uma inaceitável lei de anistia que equiparou torturadores e torturados na hora do perdão. Transições levadas a cabo pelo comedimento e o bom comportamen­to para que sempre predominasse a velha máxima: mudar algo, para que tudo perma­neça como está.

A recompensa pela cautela brasileira na hora de promover grandes transforma­ções sociais nunca foi além de um misto de simpatia e compaixão mundial. Por aqui, a classe dominante sempre alimentou o mito de que nosso exemplo de conduta cordial e diplomática nos levaria, naturalmente, ao rol das grandes nações desenvolvidas do mundo. Assim aguardamos desde sempre a concretização do surrado e idealista bor­dão: “Brasil, o país do futuro”.

Aos desavisados e irritantemente pacientes com o ritmo lento do desenvolvimento do subdesenvolvimento brasileiro, um recado: não há rigorosamente nada que assemelhe o passado dos países de capitalismo avan­çado ao presente da periferia capitalista. Por consequência, não há como esperar que o presente destes países possa ser, sob estas as mesmas circunstâncias, o nosso futuro.

Nesta encruzilhada histórica, a única saída é criarmos nosso próprio caminho. É urgen­te rompermos com os modelos do passado e abrirmos nós, brasileiros, um novo capítu­lo na história mundial. Caminho que passe pelo que há de positivo na experiência uni­versal, certamente. Mas que, como expres­são de maturidade política, saiba dizer não aos velhos esquemas de desenvolvimento importados de fora, que em nome de um universalismo abstrato negam o caráter na­cional das diversas revoluções da história mundial.

Não podemos mais assumir postura me­ramente defensiva e nos tornarmos cati­vos da trincheira. É hora de sair e tomar a bandeira do inimigo. O rompimento com o marasmo coletivo e o fim do hiato que se­para o Brasil potencial do Brasil real passa, necessariamente, pela Revolução Brasileira.

Dissipando ilusões

Os últimos 13 anos representaram enorme retrocesso político e organizativo para a maioria da população brasileira. O povo, orientado por suas necessidades imediatas, embarcou na narrativa oficial de que os ganhos reais no salário mínimo, a expansão do ensino superior (predominantemente privado), as modestas taxas de crescimento do PIB e uma pretensa respeitabilidade internacional teriam caráter permanente. Subitamente o Brasil se transformara num “país de classe média”. Uma combinação ideológica que inflou a autoestima do Brasil e dos brasileiros permitindo a “paz social” que tanto encanta os capitalistas no país.

Os dados são tão impressionantes quanto ilusórios. O estudo da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República definiu como “nova classe média”, os indivíduos com renda per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00. Portanto, não é demais dizer que nem mesmo Lula, Dilma ou seus lacaios burocratas que formularam o novo conceito gostariam de pertencer à nova classe média brasileira. Além do mais, não existe a menor possibilidade de uma nação se sustentar como país de classe média com consumo de massas quando os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que 80% da População Economicamente Ativa do país ganha até 3 Salários Mínimos, o que totaliza pouco mais de R$ 2.800,00, enquanto o salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE, deveria ser de aproximadamente R$ 4.000,00. Enfim, onde comanda a superexploração é impossível qualquer vestígio de cidadania!

Para além dos méritos de um governo com o mínimo de sensibilidade social, o efeito passageiro da elevação da renda da terra vivida até 2013 foi resultado de um momento excepcional do comércio internacional. Como é típico de países que não viveram processos revolucionários, a expansão econômica não alterou a relação entre economia, Estado e classes sociais. Na verdade, ocorreu o contrário: do ponto de vista político, os cargos estratégicos que Lula e Dilma concederam a personagens como Edison Lobão, Eunício Oliveira, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Gilberto Kassab, Helder Barbalho, Kátia Abreu, Moreira Franco, José Sarney e Renan Calheiros só contribuíram para o reforço às velhas oligarquias regionais e ao caciquismo partidário; do ponto de vista econômico, a expansão baseada na renda da terra, comandada pela grande propriedade agroexportadora e o extrativismo mineral fez com que a área ocupada pelo latifúndio no Brasil quase dobrasse, avançando de 128 para 244 milhões de hectares durante os governos petistas; do ponto de vista social, a participação dos 5% mais ricos no total da renda nacional sob a condução do Partido dos Trabalhadores avançou de 40 para 47% , ou seja, a atenção às camadas populares só avançou na medida em que não foi preciso tocar num milímetro do prestígio social, na propriedade e no poder dos ricos do país.

Isto aconteceu porque, durante os últimos 20 anos, o liberalismo brasileiro de esquerda e de direita aceitou, sem contestações, a tese de que o sistema político é regido pelo malfadado “presidencialismo de coalizão”. Em linhas gerais, os partidos da ordem conformaram-se com a ideia de que a política brasileira é inviável sem um amplo acordo com base no congresso nacional, pois a sociedade brasileira seria por demais “complexa” e “diversa”. A “tese” possui clara função ideológica: é a melhor alternativa disponível para sabotar o presidencialismo como regime político e justificar o pacto entre as classes dominantes.
A Revolução Brasileira deve recuperar a força do presidencialismo real, sem coalizão. Não há que alimentar ilusões no parlamento e nas alianças que somente se justificam se realizadas com o povo. Um presidencialismo em que o poder da liderança convoque as massas e de fato altere a correlação de forças em favor das maiorias.

Aprofundamento da dependência

Do ponto de vista econômico, os últimos anos significaram uma brutal regressão do Brasil na divisão internacional do trabalho. O período devolveu o país ao fim da dé­cada de 70 em termos de perfil do comér­cio exterior, pois voltamos a exportar mais bens primários do que manufaturados. A participação da indústria no PIB caiu para o mesmo patamar da década de 40, perí­odo do início da industrialização brasileira, inferior a 10% . A burguesia industrial se desnacionalizou e se converteu em mera burguesia comercial parasitária: compra, monta e revende produtos importados. Por conta disso, as contas nacionais sangram, pois são drenados para o estrangeiro mais de 45 bilhões de dólares todos os anos em fretes internacionais, remessas de lucros para a sede das multinacionais, pagamen­tos de propriedade intelectual e aluguel de equipamentos não-nacionais.

Os investimentos no latifúndio foram tur­binados, enquanto se manteve estagnada a agricultura familiar. Quando a crise ca­pitalista reduziu a rentabilidade do capital agrário, em 2012, prontamente se conse­guiu a revisão do Código Florestal, fazendo com que a expansão da fronteira agrícola pudesse compensar em volume produzido a queda nos preços internacionais. Só em 2015, já com as contas estranguladas pela crise fi­nanceira do Estado, foram destinados nada menos que 43 bilhões de reais em subven­ções para o latifúndio. Não por outra razão, mesmo “contrariando seu partido”, mas em completa comunhão com sua classe de ori­gem – o latifúndio – a senadora Kátia Abreu foi tão fervorosa na defesa de Dilma duran­te o processo de impedimento. Assim, os la­tifundiários tinham o governo Lula/Dilma e contavam também, comodamente, com o fu­turo governo Temer.

O capital financeiro elevou as taxas de juros a patamares estratosféricos, fazendo a festa das altas finanças que especula com os títu­los da dívida pública. Acumulam riqueza com a permanente renegociação da dívida com remuneração excepcional e assim se deleitam com a maior fonte de acumulação de capital da burguesia doméstica. Nos últimos anos, os valores pagos à rapinagem financeira foram pelo menos dez vezes maiores do que o or­çamento da saúde no Brasil. A força do ren­tismo explica o fato de o país manter a maior taxa de juros do mundo desde 1994, início do Plano Real.

O fim do pacto e a dinâmica da crise

Em 2013, as manifestações populares escan­cararam a crise do sistema político brasileiro, com generalizado repúdio aos partidos polí­ticos de qualquer agremiação. Aquela surpre­endente manifestação de rebeldia represen­tou oportunidade para juntar o apelo popular a reformas estruturantes que destravassem o desenvolvimento econômico do país. No en­tanto, Dilma optou por lançar um pacto, jun­to a governadores e prefeitos das principais capitais do país, assentado sobre 5 pontos: a manutenção do compromisso com a política de corte de gastos, reforma política, saúde, educação e transporte. Com o primeiro – a “responsabilidade fiscal” – a presidente ratifi­cou que se manteria fiel aos pilares do projeto econômico da classe dominante, aniquilando qualquer chance de êxito dos outros quatro.

A manutenção do rentismo exige compro­misso com a austeridade fiscal que deita raí­zes sobre a Lei Complementar n. 101, chama­da de “lei de responsabilidade fiscal”. Desde 2000, a lei estrangulou as contas dos esta­dos e municípios e a população acompanhou um acelerado processo de sucateamento da prestação de serviços de saúde, educação, transporte e segurança cujo objetivo é a pri­vatização das empresas estatais do setor de serviços que ainda restaram aos estados, exemplo do Barisul no Rio Grande do Sul ou Cedae no Rio de Janeiro.

Em resumo, o PSDB criou o Plano Real e o PT assumiu o poder introduzindo na lógica de acumulação de capital na periferia o aten­dimento da questão social. Mas o respeito à austeridade fiscal permite apenas migalhas para o atendimento das demandas sociais, fato que pode ser observado quando o prin­cipal programa social do governo -o Bolsa Fa­mília - consome meros 0,47% do PIB, enquan­to o custo da dívida leva quase 9% da renda nacional anualmente para os banqueiros. Foi neste contexto que o petismo representou tão somente uma perversa modalidade de “digestão moral da pobreza” na qual os tra­balhadores permaneceram submetidos à su­perexploração da força de trabalho - garantia de super-lucros à todas as frações do capital - mas foram compensados com programas sociais, que eternizam os pobres como mera força de trabalho à inteira disposição da re­produção ampliada do capital.

No terreno da consciência ingênua, cuja me­lhor expressão é o comportamento e discurso do eleitorado petista, criou-se a esperança de que, renovada a confiança eleitoral em 2014, Dilma finalmente daria uma “virada à esquer­da” no segundo mandato. Aquela virada que a consciência ingênua esperava desde o go­verno Lula, mas que o líder do partido nunca quis fazer, pois não estava disposto a arriscar seu prestígio junto à classe dominante para cumprir uma função esperada historicamen­te pela militância. Como um portador crônico de dislexia, sempre que desejava uma guina­da à esquerda, o petismo rumava mais e mais à direita.

Como já era de se esperar, os cortes só fize­ram crescer a crise brasileira. Com a notícia de que o Produto Interno Bruto havia caído 3,8% em 2015, a burguesia brasileira aper­tou o gatilho e bradou: “vamos ao golpe”! Agravidade da crise econômica não era mais compatível com o ritmo lento do PT em fa­zer as reformas necessárias em favor da acu­mulação de capital. Dilma e o PT deixam o governo não por suas virtudes na execução das “políticas de inclusão social”, mas preci­samente pelo esgotamento de sua capacida­de de condução do projeto burguês do país, pautado na modalidade de aliança de classes com subalternização dos trabalhadores e au­sência de protagonismo popular.

A que herança renunciamos?

A Revolução Brasileira renuncia à herança que abandonou a luta contra a dependência e o subdesenvolvimento. É preciso ter cons­ciência de que a busca pela efetiva soberania nacional jamais poderá ocorrer sob a ordem burguesa, a despeito das virtudes de um e outro governo. Os dois mandatos de Lula e, depois, a eleição de Dilma nos deixam a lição de que governos de composição de classe orientados pela governabilidade e sem pers­pectiva de ruptura com a ordem burguesa servem exclusivamente para acomodar os in­teresses das classes dominantes com renova­da e finita legitimidade. É preciso recuperar, portanto, a perspectiva da longa duração e das lutas nacionalistas e revolucionárias.

O pacto de classes promovido pelos gover­nos do PT teve largo efeito sobre as direções do movimento sindical e social. Abandonou­-se o horizonte transformador radical, a luta pelo socialismo que embalou a origem da CUT e do MST. Adotou-se a regressão políti­ca dos diálogos sociais, as mesas tripartites, as negociações coletivas sem conflito, enfim, a restrição da luta política da classe traba­lhadora aos ditames restritos dos gabinetes, promovendo uma ruptura sem preceden­tes entre a classe e as burocracias sindicais. Aqueles sindicatos que surgiram combativos, frutos da classe trabalhadora em luta, foram pouco a pouco cedendo a radicalidade para a política de “defesa da governabilidade”. Abandonaram a formação política e bloque­aram internamente o marxismo, por determi­nação das cúpulas dirigentes, muito antes da eleição de Lula em 2002. Abraçaram a forma­ção tecnicista dos seus quadros, rebaixando a vanguarda dirigente da classe trabalhadora a mera burocracia da estrutura sindical. Era uma clara estratégia de desarmar a classe trabalhadora para poder conduzir com maes­tria o pacto de classes a favor da burguesia.

Após a eleição de Lula, rebaixaram sistemati­camente o horizonte da política sindical. A ati­vidade política dos sindicatos e movimentos sociais, que precisa ter um caráter eminente­mente emancipatório, rompendo com a alie­nação do cotidiano capitalista, foi silenciosa­mente transformada em defesa das políticas públicas do governo. Ou seja, a tão almejada autonomia sindical, um dos fundamentos da origem da CUT, foi substituída pelo sindicalis­mo de Estado, pelo sindicalismo de resulta­dos e por algo extremamente deletério para a classe: o sindicalismo empresarial atrelado ao rentismo, onde dirigentes sindicais passa­ram a ser gestores de poderosos fundos de pensão, trazendo uma nova razão de funcio­namento para os sindicatos, totalmente con­traditória às lutas dos trabalhadores.

Os sindicatos ficaram cativos de suas pró­prias ilusões. A Revolução Brasileira faz um chamado aos dirigentes sindicais e sociais ainda combativos, para que possamos jun­tos restituir o papel do militante combativo e transformador, liderança perante as bases, refundando um movimento sindical e social poderoso, que possa ser um alicerce do avan­ço e resistência na atual guerra de classes.

Renunciamos à herança dos que não fizeram a real batalha da comunicação. Os governos petistas não só não encamparam a luta contra os monopólios midiáticos como endossaram a cobertura da imprensa dominante. Quando se viram desassistidos e na iminência da per­da do poder, “descobriram” que os grandes grupos de comunicação tinham descartado a alternativa petista. Temos profunda clare­za de que a cobertura midiática dominante não guarda qualquer relação com as deman­das populares, senão com a representação de seus próprios interesses. Possui uma agenda política definida e, como classe dominan­te que é, apresenta soluções profundamen­te anti-povo. Cientes de que a corrupção é a regra do sistema político, mídia e sistema financeiro fabricam uma opinião pública dócil e compreensiva. No entanto, a narrativa fan­tasiosa já não produz o mesmo efeito.

Também julgamos fundamental renunciar à herança que reduz o pensamento de esquer­da à busca pela justiça social. Governos as­sentados sobre as políticas públicas como forma de correção das injustiças e desigual­

dades produzidas pelo capitalismo cometem o erro histórico de considerar a população como objeto, e não como sujeito da políti­ca. Sem o devido caráter emancipatório que deve acompanhá-la, a busca pela justiça so­cial, como tal, só alcançou horizontes limita­dos nos países avançados e bastou a crise capitalista de 2008 para varrer as garantias e acentuar a luta também no centro do sistema. Na periferia capitalista, é preciso mais do que nunca perceber que tais elementos de justiça social são absolutamente impraticáveis. Não há conciliação possível entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores. O governo atuou, por algum tempo, conce­dendo benefícios às elites no atacado e con­cessões ao povo no varejo. Logo veio a crise capitalista e deixou cristalina a natureza do sistema: os interesses de patrões e empre­gados são divergentes e inconciliáveis. Atue­mos, portanto, em consequência: é chegada a hora da Revolução Brasileira.

Os desafios da esquerda e nossa opção pelo PSOL

A natureza da crise atual impõe exigências que há muitas décadas não se apresentavam para os trabalhadores e a esquerda brasilei­ra. Não sofremos a maior crise da história do país como indica a direita; a Revolução de 30 e a deposição do governo nacional reformis­ta de João Goulart com a ditadura de 1964 foram resultados de crises muito mais pro­fundas e amplas. A primeira abriu as portas para o desenvolvimento do capitalismo e as instituições decisivas para o país. A segunda, interrompeu a mais profunda experiência re­formista de nossa história e exibiu os limites do reformismo político. No entanto, a dife­rença especifica da crise atual reside no fato de que se trata de uma crise financeira do estado e não mero resultado da crise fiscal como pretendem ideologicamente os liberais (de direita e esquerda). Em resumo, afirma­mos que entrou em crise o sistema político que sustentou a dominação burguesa até o momento, ou seja, o sistema petucano. É uma crise em que os pactos e a política de aliança possuem espaço reduzido para ga­nhar milhões de trabalhadores e as classes médias empobrecidas. A desnacionalização e redução da indústria, o caráter rentista do desenvolvimento capitalista, a ampliação da renda da terra, o assalto ao estado com mão cheia por meio da dívida pública e do endivi­damento externo implicou na declaração de guerra contra os trabalhadores por parte da classe dominante. Toda e qualquer tentativa de “mediação” somente favorecerá a classe dominante e implicará necessariamente em perdas materiais e do grau de consciência para a classe trabalhadora. Neste contexto, a esquerda brasileira está chamada à renovação radical da práxis política e de seu programa.

Neste contexto, o PSOL tem méritos indiscu­tíveis, pois é partido que permite e, no limite, exige o exercício da crítica, além de espaço de experimentação de uma nova práxis que necessitamos produzir. No entanto, não se trata apenas de reconhecer o PSOL como uma frente política, mas de lutar no seu in­terior para a afirmação plena do socialismo como horizonte de nossas lutas e compro­misso permanente da militância. Assim, ob­servamos que o PSOL poderá ser valioso ins­trumento para a consolidação do Programa da Revolução Brasileira e somaremos esfor­ços com milhares de outros militantes que já trabalham arduamente nesta direção e com este propósito.

O PSOL está convocado pela situação históri­ca a enfrentar este enorme desafio. Também participam deste horizonte o PCB, o PSTU, o PCO e o PPL. A esquerda é chamada a unificar a luta de massas em função da ofensiva bur­guesa, mas sobretudo atualizar o programa da Revolução Brasileira sem o qual se tornará inútil o “espirito crítico” de “organizações de esquer­da” que na prática reforçam a razão de esta­do e limitam o avanço da consciência crítica e socialista do trabalhadores. O horizonte da es­querda não pode ser o de limitado espirito crí­tico do liberalismo ou ainda sua “ala esquerda”.

Nos países centrais esta linha representou a incorporação dos partidos socialistas à ló­gica da social-democracia europeia e, nos países periféricos, sob condições de depen­dência e subdesenvolvimento, não passa de farsa cínica. Um auxiliar da dominação bur­guesa cujas consequências observamos ago­ra sob os escombros do fracasso histórico da política petista. É preciso entender que não devemos aceitar a correlação de for­ças supostamente adversa como justifica­tiva para perpetuar formas de organização superadas historicamente.

É tempo da Revolução Brasileira. É tempo de novo radicalismo político, que já se manifesta de maneira plena na greve dos garis do Rio de Janeiro, nos metroviários em São Paulo, nos municipários de Florianópolis, nas ocupa­ções das escolas em vários estados do país. É tempo de nova práxis marcada pela discipli­na e exemplo dos militantes nos sindicatos, nas organizações estudantis, nas ocupações, nas associações de bairros, etc. O Programa da Revolução Brasileira exige um novo perfil de militância e renovado respeito pelo caráter de massas de entidades dos trabalhadores. A partidarização de sindicatos deve ceder es­paço para a consciência crítica para além dos partidos atuais, inclusive do próprio PSOL.

Decidimos assumir o PSOL para implementar um debate necessário entre a tradição nacio­nalista tão vilipendiada pela direita em nosso país e o marxismo, tão diminuído nas filas da esquerda e no seio das classes subalternas. Decidimos assumir o PSOL para não permitir a morte da cultura nacional diante da ofen­siva da indústria cultural metropolitana, es­pecialmente estadunidense. Reivindicamos o caráter revolucionário que o nacionalismo pode assumir na periferia capitalista como parte indissolúvel da luta socialista, tal como demonstram as revoluções vitoriosas na his­tória mundial.

Os sindicatos ficaram cativos de suas pró­prias ilusões. A Revolução Brasileira faz um chamado aos dirigentes sindicais e sociais ainda combativos, para que possamos jun­tos restituir o papel do militante combativo e transformador, liderança perante as bases, refundando um movimento sindical e social poderoso, que possa ser um alicerce do avan­ço e resistência na atual guerra de classes.

Renunciamos à herança dos que não fizeram a real batalha da comunicação. Os governos petistas não só não encamparam a luta contra os monopólios midiáticos como endossaram a cobertura da imprensa dominante. Quando se viram desassistidos e na iminência da per­da do poder, “descobriram” que os grandes grupos de comunicação tinham descartado a alternativa petista. Temos profunda clare­za de que a cobertura midiática dominante não guarda qualquer relação com as deman­das populares, senão com a representação de seus próprios interesses. Possui uma agenda política definida e, como classe dominan­te que é, apresenta soluções profundamen­te anti-povo. Cientes de que a corrupção é a regra do sistema político, mídia e sistema financeiro fabricam uma opinião pública dócil e compreensiva. No entanto, a narrativa fan­tasiosa já não produz o mesmo efeito.

Também julgamos fundamental renunciar à herança que reduz o pensamento de esquer­da à busca pela justiça social. Governos as­sentados sobre as políticas públicas como forma de correção das injustiças e desigual­

dades produzidas pelo capitalismo cometem o erro histórico de considerar a população como objeto, e não como sujeito da políti­ca. Sem o devido caráter emancipatório que deve acompanhá-la, a busca pela justiça so­cial, como tal, só alcançou horizontes limita­dos nos países avançados e bastou a crise capitalista de 2008 para varrer as garantias e acentuar a luta também no centro do sistema. Na periferia capitalista, é preciso mais do que nunca perceber que tais elementos de justiça social são absolutamente impraticáveis. Não há conciliação possível entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores. O governo atuou, por algum tempo, conce­dendo benefícios às elites no atacado e con­cessões ao povo no varejo. Logo veio a crise capitalista e deixou cristalina a natureza do sistema: os interesses de patrões e empre­gados são divergentes e inconciliáveis. Atue­mos, portanto, em consequência: é chegada a hora da Revolução Brasileira.

Convocamos a todos para se somarem às fileiras de combate da Revolução Brasileira.

Comentários

  1. Concordo plenamente com os argumentos aqui apresentados. Só sinto que as eleições tenham uma peso muito grande nas ações do PSOL Sem desprezá-las, é claro, mas tenho a convicção que só teremos resultados eleitorais efetivos, quando as eleições deixarem de ser prioridade.

  2. Os 3 últimos parágrafos dos títulos “A que herança renunciamos” e “Os desafios da esquerda e nossa opção pelo PSOL” são idênticos (de “Os sindicatos ficaram cativos de suas pró­prias ilusões. (…)” até o final.
    O que entendi do manifesto:
    – Presidencialismo de coalizão é ruim;
    – Qualquer conciliação entre classes é impossível;
    – O sindicalismo precisa retornar às origens combativas;
    – Militância de base é importante;
    – Visão crítica é importante.
    O que não entendi:
    – A proposta. Presidencialismo, com outra “roupa” é desejável? O objetivo é o socialismo marxista?
    Uma youtuber chamada Natalie Wynn expressa muito bem minha dúvida no vídeo “The Left”, do canal Contrapoints (em inglês, com legendas em português e outras línguas).

    O manifesto reforçou minha opinião prévia que revolução é não só possível como necessária. Quero me dedicar a ela. Tenho tempo e disposição. Acredito que minhas limitações podem ser contornadas.

    Por favor, me corrijam se houver alguma incorreção na parte “o que entendi” 🙂
    Vou fazer uma visita ao diretório do PSOL da minha cidade. Sou filiada ao PCB desde 1989, mas não tem diretório aqui e eu funciono melhor com conversa presencial…
    Aguardo resposta por e-mail!!! Gostei muito do manifesto – parabéns aos redatores!
    Abraço e tamojunto!!!

    1. Boa noite Adrea, é uma satisfação pra nós ler a sua mensagem. Em qual cidade você reside? Entraremos em contato com o coordenador da sua região para conversar contigo. Grande abraço!

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