Em novembro passado, escrevi um texto sobre a vulgaridade como marca central da atuação do presidente Lula e dos governos petistas, exemplificando alguns de seus aspectos mais notáveis. Entre os principais pontos, tratei da sua postura nas relações exteriores, falando sobre o cinismo com que ele aborda a questão e sua performance de soberania, que mascara a mais absoluta submissão ao imperialismo. As terras raras figuravam como dado relevante e, já então, ficava clara a tentativa de entrega de riquezas estratégicas em troca de módicos ganhos políticos e comerciais. Soberania era só maquiagem:
“No caso das relações com o hegemon imperialista, o presidente brasileiro, performando altivez e defesa da soberania, recebeu módicos elogios de sua contraparte estadunidense após meses de tentativas de aproximação diplomática. Em contrapartida, abriu todas as portas para os EUA seguirem seus avanços sobre nossas riquezas, ao colocar nas negociações os minerais estratégicos que eles buscam, causando imenso furor na mídia “independente” (a seu serviço) e ganhando notas positivas nos monopólios do setor (a serviço do grande capital).
Aquilo que outrora seria visto, ao menos, com imensa suspeição e, mais adequadamente, seria tomado por sujeição inaceitável, passou a se tornar motivo de orgulho e alarde […] bastaria um olhar crítico sobre a voracidade do Estado norte-americano em seu trato com o resto do mundo na atual conjuntura, para concluir o óbvio: o elogio de Trump é o elogio à submissão do Brasil.”[1]
Após recente visita aos EUA (na qual reafirmou a vassalagem do governo), às pressas e com ampla articulação no parlamento, foi aprovado o rasteiro marco regulatório [2] que, finalmente, servirá para mediar a rapinagem de recursos críticos por forças estrangeiras, justificado cinicamente no fato de que é mais barato fazer (parte de) seu processamento aqui. [3] O governo usa a superexploração da força de trabalho [a] como moeda de troca: saqueiem o país, mas empreguem nossa mão-de-obra barata no processo!
Torna-se, então, indispensável a compreensão crítica de sua quase total identificação, em caráter e natureza, com seu oposto eleitoral: Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato ao mesmo cargo, ainda em março deste ano, falava abertamente sobre abrir o acesso dos EUA [4] aos mesmos recursos que hoje Lula entrega, sorridente, à sua contraparte estadunidense (e recebendo de volta merecidos sorrisos e declarações de amor). As diferenças se apequenam cada vez mais.
Um grão de memória nos faz bem: já tivemos, mesmo em condições ainda mais adversas e desafiadoras, lideranças à altura de seu tempo. Vale contrapor o caso atual com a Campanha do Petróleo, capitaneada por Getúlio Vargas e que resultou na criação da Petrobras, após extensiva mobilização nacional. Lula, por outro lado, banaliza as relações internacionais, tratando-as como relações pessoais, enquanto faz sua forma preferida de política, em acordos escusos nos corredores do congresso nacional, prostituindo o governo e as riquezas da nação. Despolitiza e vulgariza questões de interesse geral, afastando-as do povo, jamais tendo assumido o papel de liderança nacional que encerra o estatuto da presidência.
Ora, há tratamento mais vulgar do que o dado pelo presidente da república aos assuntos de Estado? Acaso o sorriso de Trump altera a relação centro-periferia em nosso favor? Bom humor e boa vontade não ditam as relações entre Estados nacionais, e essa banalização despolitizada oculta as determinações e condições mais concretas: o presidente foi aos EUA entregar algumas das riquezas mais estratégicas de nossas terras, nesta quadra histórica, em troca de ganhos eleitorais e favorecimento às elites que o sustentam e às quais representa.
Neste mais recente episódio, Lula só fez por referendar o diagnóstico ao qual chegamos anteriormente:
“É indispensável analisar criticamente a própria natureza dos governos petistas e reconhecer neles seu caráter de classe, não como um projeto crivado de equívocos, mas os compreender enquanto um projeto implementado em favor das classes dirigentes e contra os trabalhadores. Faz-se, portanto, necessário reorganizar as esquerdas para além de uma atuação política vulgar, aquém das exigências extremas dos nossos tempos, se almejamos algo mais do que as muitas derrotas sofridas nas últimas décadas e as pouquíssimas vitórias pírricas que as legitimaram.
A construção de um projeto de nação, verdadeiramente soberano, passa pela superação histórica do petismo enquanto ideologia norteadora e pela recolocação de um horizonte revolucionário de caráter socialista no debate público como condição necessária para sua realização.”[1]
Reafirmo: uma atuação política verdadeiramente consequente com o desenvolvimento da nação exige a ruptura imediata com o Lulismo. A hesitação aí só pode resultar na redução do lastro, já minguante, que as esquerdas têm com o povo brasileiro. Os esparsos farelos jogados às massas desamparadas já não servem como justificativa para a mais completa rendição das lutas que se apresentam nesta quadra histórica. Estes servem apenas como mera digestão moral, não só da pobreza, mas de todas as derrotas sofridas nas últimas décadas!
Em um ano eleitoral, os partidos têm oportunidade de expor sua linha política para audiências muito maiores do que em outros momentos, o que pode resultar em ampliação ou encolhimento de seu apelo popular. O tempo tem demonstrado que nas alianças com o PT, todo pequeno ganho é acompanhado de compromissos injustificáveis que, a cada ciclo eleitoral, vão minando as virtudes e fazendo multiplicar os vícios das organizações. Essa espiral descendente produz o cretinismo parlamentar mais lamacento, do qual é cada vez mais difícil emergir sem ruptura definitiva com as ilusões que o alimentam.
Sem a construção de uma alternativa política que recoloque a revolução brasileira no horizonte, seguiremos condenados ao aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento pelas mãos do político medíocre que ocupa atualmente o cargo máximo desta nossa república. Ou de quem quer que o suceda. A diferença é meramente cosmética.
Thiago Callegario
Militante pela Revolução Brasileira – Rio de Janeiro
[1] https://revolucaobrasileira.org/02/12/2025/lula-o-partido-dos-trabalhadores-e-a-vulgaridade-como-praxis-politica/
[2 ]https://www.camara.leg.br/noticias/1269666-camara-aprova-criacao-da-politica-nacional-de-minerais-criticos-e-estrategicos/
[3] https://www.youtube.com/watch?v=IJ0ie3ABhyo
[4] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/flavio-diz-que-brasil-e-solucao-para-eua-ter-minerais-de-terras-raras/
[a] MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, R.; STEDILE, J. P. (Orgs.). Ruy Mauro Marini: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005, p. 154-161.