A ofensiva de Lula e Trump contra a Venezuela

O imperialismo na América Latina

 Algo muito estranho ocorre na mentalidade dos analistas liberais, sejam de esquerda e de direita, a respeito do ataque terrorista e o sequestro do presidente Nicolás Maduro no último dia 03/01/2026. Em ambos os casos, diz-se tudo, menos o essencial. Tal debilidade será sempre mais nociva à esquerda do que à direita. Explico: são raríssimas as análises que abordam a materialidade do fenômeno. Devemos reconhecer que, sem o uso sistemático da crítica sobre a realidade, não teremos condições de explicar nenhum fenômeno histórico.

 A preocupação com a intervenção militar dos Estados Unidos é marca constitutiva da formação histórica da América Latina. Somente ingênuos podem atribuir o ato terrorista à Venezuela como fenômeno inédito. Antes mesmo do desfecho colonial latino-americano Bolívar já se deparava com a voracidade dos Estados Unidos às riquezas da América Latina e assentado nos princípios da Carta da Jamaica, de 1815, organiza o Tratado Confederativo (união, liga e confederação) em 1822 e afirma a utopia de um continente de nações irmãs. Ao saber da Doutrina Monroe (1823), Bolívar convoca todos os países do Tratado Confederativo para participar da criação do Congresso do Panamá de 1826. A consciência de Bolívar sobre as intervenções dos Estados Unidos é tão grande que na carta ao Coronel Campbell de 1829 afirma que “Los Estados Unidos parecen destinados por la Providencia a plagar la América de miserias en nombre de la libertad”.

 É fácil perceber que, ainda em 1826, Bolívar, submetido aos sequazes espanhóis, não vacila em dizer que o Tratado serviria para “sustentar a força estratégico-militar da região, tanto para a conclusão das hostilidades com a Espanha, quanto para colocá-la ao abrigo de futuras agressões estrangeiras; e para salvaguardar o regime republicano, presente de maneira uniforme em toda a América” (Tradução livre). Tal herança bolivariana não encontra paralelo na maioria dos países da América Latina, em particular no Brasil. Nem mesmo as sucessivas intervenções de toda ordem promovidas pelo imperialismo durante o século XX fizeram com que Lula e Dilma entendessem a urgência da integração evocada pelo bolivariano Chávez quase duzentos anos após a utopia original. A Revolução Bolivariana foi ignorada pelos petistas que optaram, em vez disso, pela velha vassalagem às potências ocidentais ou pelo “encanto” com o novato e impotente Sul Global.

 Ora, o que está em disputa na América Latina – e na Venezuela em particular – é precisamente o desabrochar daquilo que Marini chamaria de reestruturação do sistema internacional. O velho esquema de dominação mundial que imperava desde 1992, com os Estados Unidos à frente, encontra agora um grande concorrente: o poderoso chão de fábrica chinês. Podemos afirmar que isso corresponde a uma etapa de resolução das contradições surgidas depois que a China e todo o continente asiático despontaram para o mundo. É, sem dúvida, uma tentativa dos Estados Unidos de centralizar a renda petroleira e todo tipo de riqueza em proveito próprio. Isso é tão relevante que ficou estampado no discurso de Trump ao exibir as vísceras do ato terrorista. Ainda que analistas criticos brasileiros sequer tenham se atinado ao essencial, Trump foi categórico ao afirmar: “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos são centrais para a segurança nacional […] assim como as tarifas; elas fazem nossos países ricos e nossa segurança nacional mais forte, mais forte do que nunca. Mas essas são as leis de ferro que sempre determinaram o poder global”.

 A verdade também pode advir dos homens mais criminosos, assim como a boa música nem sempre advém do mais belo músico. Aliás, Lênin já havia vaticinado, em 1917, que “a principal característica do capitalismo moderno consiste na dominação exercida pelas associações monopolistas dos grandes patrões. Estes monopólios adquirem a máxima solidez quando reúnem nas suas mãos todas as fontes de matérias-primas, e já vimos com que ardor as associações internacionais de capitalistas se esforçam para retirar do adversário toda a possibilidade de concorrência para adquirir, por exemplo, as terras que contêm minérios de ferro, campos de petróleo, etc.”. As leis de ferro a que Trump se refere garantem a dominação mundial. Quanto mais desenvolvido é o capitalismo, mais dura é a concorrência entre as potências.

 Gostaria de insistir em um ponto fundamental: a concorrência com a China não guarda íntima relação com o que ocorreu com a Europa e o Japão após a Segunda Guerra Mundial. Naquele contexto, a hegemonia do capitalismo dos EUA integrou e tutelou os novos sistemas produtivos europeu e japonês. Como observou Marini, as exigências de aprofundamento do capital impuseram-se nessa zona, provocando a centralização e a interpenetração de capitais, o que promoveu a integração europeia e alterou as bases técnicas de produção.

 O esquema de dominação mundial ainda segue nas garras do imperialismo estadunidense, mas agora conta com uma potência indesejada. Não se trata de decretar, como fazem os apressados, a decadência do império – longe de mim tal ingenuidade; o que está em questão é a expansão do capital da China a provocar uma alteração na correlação de forças do Ocidente. Como o multilateralismo pós 1945 nunca organizou o mundo efetivamente, sendo sempre uma bandeira rasgada diante do poderio econômico dos Estados Unidos, o que assistimos agora é uma escalada radical do imperialismo em toda a América Latina.

 

 

A escalada do imperialismo

 É verdade que a América do Sul nunca passou por uma escalada dessa magnitude, mas não é menos verdade que, no período de ouro da democracia liberal – em que os organismos internacionais gozavam de um multilateralismo ainda que baixa intensidade (aquele mesmo reiterado por Lula) – atos terroristas, criminosos, intervenções de toda natureza sempre ocorreram. Ademais, vamos ocultar a íntima ligação do imperialismo com a ditadura militar brasileira de 1964 a 1985? Ou, ainda, a ofensiva brutal contra as conquistas democráticas de Allende? Para citar apenas exemplos sul-americanos. Enfim, os casos são abundantes; e, se voltarmos nossos olhos à América Central, exemplos ainda mais contundentes revelar-se-ão, como o sequestro do Manoel Noriega em dezembro de 1989, no Panamá.

 No Brasil, a esquerda liberal ficou moralmente comovida com o atentado terrorista; uma comoção tão verdadeira quanto impotente, já que o imperialismo há muito tempo deixou de ser tema nos cursos de formação política dos partidos, organizações, sindicatos, tornando-se uma lembrança longínqua na mentalidade das lideranças políticas. O moralismo da esquerda liberal oculta o fato de que o imperialismo não é parcial; ele sempre terá uma preocupação total com as regiões do planeta, ainda que, em certos momentos, priorize os conflitos geopolíticos do Oriente Médio em detrimento de outros. A impotência diante do imperialismo tornou-se uma arma potente nas mãos de Lula para buscar proximidade com facínoras como Bush, Obama, Biden, Trump e Macron. Ora, o que dizer do entusiasmo diante da amizade “química” com o Trump meses antes do atentado terrorista contra o povo venezuelano? Ou, ainda, o ato de desfiliar de mãos dadas, com um orgulho desmedido, ao lado de Macron – o mesmo que endossou integralmente o ato terrorista? Aliás, Macron goza de uma longa e fecunda amizade com a toda a esquerda liberal, até mesmo o Cacique Raoni historicamente submete a proteção da natureza brasileira à espada civilizatória da Europa.

 A verdade nua e crua é que Lula foi cúmplice do ato terrorista e do sequestro, evidenciando sua desfaçatez na nota oficial, apesar de nela condenar a ação e classificá-la como violação do direito internacional. É contraditório condenar tal ato e, simultaneamente, colocar-se à disposição do império para promover o diálogo. Um presidente verdadeiramente comprometido com a integração da América Latina falaria à nação em rede nacional para explicar detalhadamente o que está em disputa; no dia seguinte, convocaria as massas para um grande ato em defesa do povo venezuelano. Ficou demonstrado, contudo, que a prioridade de Lula é, de um lado, não arranhar a relação com os EUA e, de outro, as eleições deste ano.

 

 

O que vem pela frente?

 A vitória parcial do imperialismo é inegável. O ataque terrorista e o sequestro do presidente Maduro representaram um duro golpe contra uma nação subdesenvolvida e dependente, já imersa em profundas crises econômicas e sociais. Contudo, nada está decidido. Analistas apressados tentam simplificar um processo dessa complexidade em fórmulas curtas, ocultando o elemento essencial: a dialética da luta entre as nações e seus reflexos nas classes sociais. O cenário futuro permanece incerto. A estratégia imperial parece ter sido a desestabilização direta do governo e a provocação de cisões na cúpula militar. As declarações de Trump foram explícitas quanto ao interesse pela indústria petrolífera e pelas riquezas, além de uma ofensiva contra a revolução bolivariana.

 Ocorre que a recomposição do governo foi ágil, estabelecendo rapidamente uma reorganização das forças políticas nacionais. O governo bolivariano agora detém as vísceras do monstro e as expõe ao seu povo e ao mundo. Ainda não se conhece a real capacidade de convocação e organização do governo; resta saber se Delcy Rodríguez dobrará a aposta e decretará o caráter radical do regime. Uma eventual vitória soará como uma segunda emancipação — o que não é pouca coisa. Logo após o atentado, Delcy trouxe duas frentes importantes: a requalificação do programa econômico anunciado por Maduro semanas antes da detenção e um plano de unificação do país. Diante de um cenário complexo, a presidenta tenta estabilizar a nação e dar continuidade à revolução bolivariana. Sua postura atual revela uma aceitável dose de cautela, ainda que exiba a força bolivariana. Tampouco está claro o que fará Trump, uma vez que novos ataques não estão descartados. Os Estados Unidos gozam de uma vantagem extraordinária: sua economia, somada a sanções e embargos de todo tipo, além do poderio militar, impõem limites claros aos venezuelanos.

 

 

Os limites da esquerda liberal na América Latina

 Após as revoluções boliviana e cubana e de regimes democráticos avançados, como o chileno e o brasileiro da década de 1960, os governos da América Latina do final do século XX, sob o lema da redemocratização, surgiram como a grande novidade. Contudo, é fácil verificar que, na maioria dos países, tais governos ditos “alternativos” foram cópias de modelos democráticos dominantes, acrescidos de certa dose de compensação social — o que não os torna menos perversos, como nos alerta Nildo Ouriques em um “empoeirado” prefácio de 1998. No máximo, segue ele, cada programa alternativo parece outorgar alguma razão às classes dominantes e confirmar que, no vale de lágrimas em que vivemos, o homem não pode produzir algo muito diferente dos tristes desígnios atuais.

 O prognóstico não suportaria o primeiro vento se os governos progressistas do século XXI não tivessem repetido os mesmos desacertos. É certo que a “onda progressista” — que contou com figuras como Lula, Correa e Evo — avançou democraticamente; em alguns países, como Bolívia e Equador, o povo efetivamente esteve presente e participou de tais avanços. Essa realidade, de todo modo, mostrou-se incapaz de atender aos anseios mais profundos dos povos latino-americanos. Os governos sequer conseguiram construir uma força política capaz de enfrentar o avanço da direita reacionária e os ventos indesejáveis dos países centrais. Fracos no programa econômico e débeis na política e na cultura, não resistiram ao primeiro embate. É fácil perceber que a defesa da democracia tem a mesma proporção da miséria que assola o nosso povo, razão pela qual não há como dissociar, no contexto atual, regimes democráticos de cenários de violência, atentados e todo tipo de desgraça, tanto aqui quanto no Velho Mundo.

 Os limites insuperáveis dos governos liberais latino-americanos expõem, hoje, não apenas a face monstruosa da dependência e do subdesenvolvimento, mas também a profunda desarticulação em torno de um projeto dialético de solidariedade internacional, como instrumento político concreto de luta entre os povos, ou, ainda, “como o procedimento pelo qual nos integraremos num internacionalismo autêntico, o das nações em luta pela humanização da vida de suas populações” (Vieira Pinto)

 Obviamente, isso passou ao largo dos governos petistas. A defesa fatigante de que o continente é uma zona de paz e não tem contencioso revela os limites dos próprios governos quando o assunto é a política de defesa nacional. Ora, o que de fato sustenta regimes democráticos é a capacidade de defesa militar que um determinado país possui. Como alertara Marini nenhum Estado pode ignorar a força militar como forma de proteção nacional. Após anos no governo, a esquerda liberal mostrou-se incapaz de edificar uma estrutura militar robusta o suficiente para resistir às pressões imperialistas. Para nações ricas em petróleo e minérios, um aparato militar poderoso não é opcional, mas um requisito inexorável de soberania.

 A revolução bolivariana tenta despertar o sonho de Bolívar de criar um continente de nações irmãs; como dizia Marx a Ruge: “talvez até se possa deixar um navio cheio de loucos derivar por um bom tempo ao sabor do vento, mas ele acabaria indo ao encontro do seu destino justamente porque os loucos não acreditariam nisso. Esse destino é a revolução que ainda está por acontecer”.

 

 

Dauto da Silveira – Militante pela Revolução Brasileira em Santa Catarina

 

 

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Comentários

  1. As limitações da esquerda brasileira são grandes. Precisamos despertar aqui no Brasil um sentimento de pertencimento A América Latins. E a partir daí desenvolver nossa teoria revolucionária.

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