Lula, o Partido dos Trabalhadores e a vulgaridade como práxis política

vul·gar adj – m+f 

Que revela ser de qualidade inferior; baixo, grosseiro.”

 

 A vulgarização do debate político no Brasil, nas últimas décadas, é, em grande medida, consequência da atuação e da cooptação exercidas pelo Partido dos Trabalhadores e sua figura central, o presidente Lula. Entre outros fatores, sua completa recusa em mobilizar a população (e ativamente desmobilizar e reprimir mobilizações, a partir de 2013), em pautar temas relevantes publicamente e elevar o grau de politização das massas – priorizando os acordos feitos a portas fechadas -, acompanhados, paralelamente, da arregimentação de sindicatos, movimentos sociais, organizações de trabalhadores e partidos da esquerda, através de verbas e cargos para suas lideranças, e de um enorme favorecimento da concepção parlamentar da política – frequentemente abdicando das prerrogativas presidenciais – fizeram por reduzir a profundidade e o alcance do debate público no país.

 Neste arranjo, a tática política do PT, de buscar se manter permanentemente no governo, é facilitada tanto pela circunscrição da disputa ao calendário eleitoral quanto pelo seu enquadramento no adversário mais próximo nas pesquisas de opinião. Mas incorre em consequências terríveis para a nação, entre as quais se pode apontar o rebaixamento do horizonte político disputado e das questões em evidência e que podem encontrar resolução a partir do resultado do pleito. 

 O próprio Lula admitiu, cinicamente, a despolitização ampla “nos últimos 20 anos” vista no Brasil, exatamente o período que teve seu partido como hegemônico no executivo federal. Resultado: a limitação da disputa ao caráter de torcida, com times em oposição, em que o adversário da vez vira alvo de toda sorte de caracterizações, normalmente, de maneira rasteira e despolitizada, retratado como “o mais perigoso inimigo” e a eleição corrente como a “mais importante da história”. A fórmula vem se repetindo há mais de uma década e, a cada ciclo, se rebaixando e vulgarizando. Assim, o fascista de ontem vira o aliado de hoje, sem qualquer constrangimento ou esclarecimento. Tudo isso paralelo também à própria República, cuja decadência acaba por compôr o quadro, condicionando e se relacionando com o cenário político em franco declínio.

 A realidade, no entanto, é que não há mais respostas para a crise da república burguesa que se possa encontrar nesse enquadramento. O horizonte político petista já foi atingido e teve seu esgotamento exposto ainda na primeira metade da década de 2010, provando-se insuficiente para solucionar as questões que emergem do desenvolvimento do capitalismo em nossa situação específica. Pelo contrário, serve apenas para reforçar aquelas condições que trouxeram o Brasil para o atual grau de dependência e subdesenvolvimento. 

 Mesmo suas pretensões mais vulgares, de uma digestão moral da pobreza (através dos “programas sociais”, cujos custos são tão baixos que foram mantidos até pelo governo do ultraliberal Jair Bolsonaro – e expandidos, em seu último ano), da ampliação do ensino superior nos marcos burgueses (com grandes transferências de recursos estatais ao capital privado), do acesso à “picanha e cerveja” (apresentação mais recente da tentativa de formação de mercado consumidor interno que possibilitaria o desenvolvimento de uma burguesia nacional próspera) e de uma política externa “ativa e altiva” (reencarnada numa farsesca defesa da soberania, em resposta ao entreguismo ainda mais desavergonhado dos Bolsonaro e dos setores mais à direita), caem por terra cotidianamente frente à moenda da realidade na periferia do sistema capitalista e vão recuando em alcance, revelando que as condições se transformaram em escala global e que mesmo os pequenos ganhos de outrora já não são mais possíveis, forçando o discurso e a retórica a acompanharem o rebaixamento ideológico do partido, de sua liderança e do seu projeto político.

 Pode-se, sucintamente, dar alguns exemplos que ilustram a decadência de um projeto esgotado (bem antes do terceiro governo Lula) em áreas diversas:

 Primeiro, na educação se identifica uma regressão absoluta. No que concerne aos  investimentos públicos, mesmo frente à realidade já precária das décadas passadas, os recuos são enormes: bom exemplo sendo o da previsão orçamentária para o ano de 2026 (encontrados no projeto da Lei Orçamentária Anual) em que valores do chamado Orçamento do Conhecimento (para investimento, custeio e manutenção das universidades federais e agências de fomento à ciência e tecnologia) se limitam à metade do orçamento de 2014, ano em que os professores, técnicos e funcionários da educação superior federal fizeram greve nacional por mais de 100 dias devido à precariedade de suas condições de trabalho- e cuja resposta foi o uso de todos os dispositivos ao alcance do executivo federal, sob comando de Dilma, para derrotar a mobilização, incluindo o acionamento do STF, corte de ponto e repressão policial.

 Também é exemplo potente a decisão do Ministério da Educação da compra escalonada de livros didáticos para o ano de 2026, eufemismo para uma cruel realidade: não há dinheiro suficiente no orçamento para a aquisição de livros didáticos para os alunos do ensino fundamental e médio e, portanto, o ministério precisará “priorizar” certas disciplinas em detrimento das demais. Acrescenta-se ao quadro a crescente dependência das emendas parlamentares pelas universidades e institutos federais para seu custeio básico e investimento em pesquisa e extensão (dados do Observatório do Conhecimento apontam que o orçamento para investimentos nas universidades federais para o ano de 2025 foi de R$335 milhões, aproximadamente metade dos valores captados através de emendas parlamentares no mesmo ano), enquanto o presidente do maior sindicato dos docentes do ensino superior, o ANDES-SN (supostamente independente e crítico ao governo petista), faz campanha aberta à eleição de Lula para seu quarto termo, com um ano de antecedência, sem nenhuma indicação de greve ou mobilização, mesmo na situação cada vez mais dramática do ensino superior. Pareado com o aparelhamento de cargos e vantagens para os líderes sindicais, reitores e instituições em linha com o governo, o combate a um espectro fascista, sempre assomando na esquina, mas nunca se concretizando, serve à função ideológica de justificativa da rendição e da necessidade da reeleição, completando o nefasto panorama.

 Um segundo exemplo é o das relações exteriores, onde há um enorme desencontro entre discurso oficial e atuação do governo federal. Uma perspectiva otimista (de extração religiosa) diria que o desencontro é fruto dos equívocos do governo e de limites impostos pela conjuntura. Por outro lado, uma visão mais crítica (e apegada à realidade dos eventos) aponta para a manipulação da opinião pública, que faz o uso inescrupuloso de mentiras, emulando uma performance crítica e nacionalista, enquanto aprofunda a dependência e a posição subalterna do país na divisão internacional do trabalho. 

 Os exemplos mais emblemáticos desta performance são a atuação do governo quanto ao genocídio da Palestina e quanto às relações com os EUA e o imbróglio das taxações do governo Trump. No primeiro caso, o presidente, desde pouco depois do início da nova fase da limpeza étnica em outubro de 2023, denuncia publicamente as ações do Estado de Israel e faz veementes discursos sobre o tema, mas, mesmo após mais de 2 anos de aceleração da devastação na região, é incapaz de atuar em consequência. Tal dissonância expõe suas limitações políticas e sua submissão absoluta frente aos interesses imperialistas em movimento sobre Gaza e seu povo. Lula, até a data presente, não rompeu relações comerciais e diplomáticas com o Estado sionista, mesmo reconhecendo o genocídio que este promove, não havendo sanções, boicotes ou quaisquer outras ações concretas que ultrapassem o limite do simbólico. Mais recentemente, no entanto, o rebaixamento avança ainda mais: Lula vai ao limite de afirmar não ter problemas com Israel, mas apenas com o próprio governo atual. Recusa, mais uma vez, toda a história, ignorando os 75 anos de limpeza étnica e do genocídio promovidos pelo Estado sionista.

 Já no caso das relações com o hegemon imperialista, o presidente brasileiro, performando altivez e defesa da soberania, recebeu módicos elogios de sua contraparte estadunidense após meses de tentativas de aproximação diplomática. Em contrapartida, abriu todas as portas para os EUA seguirem seus avanços sobre nossas riquezas, ao colocar nas negociações os minerais estratégicos que eles buscam, causando imenso furor na mídia “independente” (a seu serviço) e ganhando notas positivas nos monopólios do setor (a serviço do grande capital). 

 Aquilo que outrora seria visto, ao menos, com imensa suspeição e, mais adequadamente, seria tomado por sujeição inaceitável, passou a se tornar motivo de orgulho e alarde. Ora, quão ingênua (ou desonesta) precisa ser a avaliação acerca da natureza das relações entre o império e a periferia para que se possa crer numa vantagem obtida para o lado de cá com maior abertura do acesso às  riquezas estratégicas em nosso país? Basta olharmos para os últimos 100 anos das relações EUA-Brasil com um mínimo de ponderação e rigor para compreender que não há vantagem obtida sem que os gringos conquistem as suas em ordens de grandeza muito superiores. Mas Lula ignora por completo essas relações, em sua perspectiva personalista e a-histórica. 

 Ainda que ignoremos a história destas relações, bastaria um olhar crítico sobre a voracidade do Estado norte-americano em seu trato com o resto do mundo na atual conjuntura, para concluir o óbvio: o elogio de Trump é o elogio à submissão do Brasil. Isso tudo sem mencionar a posição subalterna e desastrosa quanto às interferências (e a história) das relações do império na América Latina, exemplificadas nas ações recentes contra a Venezuela, com a escalada militar em vias de se tornar um ataque aberto, e contra a Colômbia. Nenhum dos casos produziu resposta significativa do Itamaraty. Enquanto isso ocorre, no pleno exercício de sua vulgarização alienante, o presidente Lula celebra uma conferência da ONU sobre mudanças climáticas em que, efetivamente, entrega nossa diversidade e riquezas ao capital transnacional, em uma festa decadente e trágica.

 Por último, todos esses fatores estão plenamente coadunados com uma atuação doméstica representativa da decadência do próprio regime político. O Partido dos Trabalhadores se tornou, antes mesmo de sua chegada ao executivo nacional, um partido fisiológico, plenamente integrado à ordem burguesa, e a degeneração pela qual o regime burguês passa, é também a degeneração do próprio partido. 

 Num dia, Lula criticava as contrarreformas do governo Temer (vice de Dilma), as privatizações, a elevada taxa Selic, o desmonte da CLT, o teto de gastos e tantos outros retrocessos. No momento seguinte, eleito, tais elementos desaparecem da ordem do dia sob a desculpa da conjuntura, da responsabilidade fiscal e da atuação do “pior congresso da história”. Fica oculta a coordenação e sintonia, quase perfeita, entre ambos – nas palavras do próprio presidente: “tudo que eu mando pro congresso, eu aprovo”. Só reaparecem quando a popularidade declina e se faz necessário atirar uma eventual migalha, recebida com previsível êxtase por seus fiéis – sempre à espera de sua redenção e crendo na prometida “guinada à esquerda”, tal qual os adventistas com a segunda vinda do Cristo. 

 Ainda assim, o governo mantém taxas de juros superiores às praticadas pelo governo do ultraliberal Bolsonaro, já sem quaisquer desculpas quanto à composição do COPOM, cuja maioria foi apontada pelo petista e atua em plena consonância com o restante da política econômica do governo. 

 Na mesma toada, mantém também os salários rebaixadíssimos, com reajustes simbólicos no salário-mínimo, incapazes de sequer acompanhar o encarecimento do custo de vida da classe trabalhadora, muito menos recompor as perdas registradas na última década. Os avanços – ou retrocessos – acontecem em todas as áreas, sempre pesando mais sobre os mais vulneráveis, e nenhum exemplo disso poderia ser mais emblemático do que o caso dos cortes no BPC (Benefício de Prestação Continuada), em dezembro de 2024. A ação, de iniciativa exclusiva do governo, foi recebida com resistência até por alguns setores da sua base – ainda que com o apoio (ou silêncio cúmplice) da maioria. Afetou única e exclusivamente idosos e pessoas com deficiência que recebiam um mísero salário-mínimo.

 Outro exemplo inevitável na avaliação é o da questão fundiária, pauta dorsal das esquerdas na periferia do sistema capitalista, com a qual o petismo está historicamente relacionado, pela ligação com o MST e outros movimentos de luta pela terra. Nesta seara, talvez mais claramente do que em qualquer outra, revela o seu caráter vulgar: nos primeiros mandatos, houve maior concentração de terras e maior expansão da fronteira agrícola do que em qualquer outro período desde o fim da ditadura militar. Notavelmente, distribui menos terras para o campesinato, posseiros e trabalhadores rurais do que os governos do tucano FHC. 

 Além disso, em seu terceiro mandato, o governo Lula vem expandindo as subvenções ao setor em escalas sem precedentes, com planos Safra quebrando recordes anualmente. O presidente, em sua vulgaridade infindável, afirma no lançamento do plano Safra 2025-2026, de volume superior a R$516 bilhões, que pretende “consolidar o Brasil como celeiro do mundo”. Talvez inadvertidamente, expondo os limites de seu projeto, no qual o país estabelece sua posição agroexportadora e fica condenado a permanecer, indefinidamente, dependente e subdesenvolvido. 

 Acrescenta-se aí o relevante dado do encolhimento da participação industrial no PIB para os patamares mais baixos registrados nos últimos 80 anos, segundo os dados da Confederação Nacional da Indústria, acompanhado do giro rentista que dá o desenvolvimento capitalista aqui a partir de 1994.

 Encerram a composição elaborada, o assalto ao Estado e o avanço da economia política do rentismo, cujo núcleo é o sistema da dívida, epicentro do processo de acumulação capitalista na fase atual brasileira, que registrou mais de R$1,4 trilhão em pagamento de juros e rolagem da dívida só em 2024, e a transferência das riquezas nacionais aos interesses particulares e privados. Esse é o caso das privatizações e do saque feito à Petrobras, via pagamentos de dividendos estratosféricos, incapacitando a empresa mais importante do país de cumprir sua função primordial. Esses dividendos somam mais de R$100 bilhões só em 2024. Outro ponto do assalto às nossas riquezas é a venda de enormes blocos de petróleo para o capital estrangeiro por mera fração de seu valor (não só financeiro mas também estratégico). Mais um exemplo deste assalto se dá na recente revelação de que a Petrobras participa cada vez menos da disputa por blocos exploratórios de petróleo e abre mão de exercer seu direito à preferência, que garante sua  participação no processo de exploração e produção do recurso: só o faz em apenas 1 de 7 blocos ofertados no 3º Ciclo de Oferta Permanente de Partilha da ANP, em Outubro deste ano.

 Os partidos, sindicatos e movimentos ligados ao petismo precisam, sistematicamente, ignorar todos os dados da realidade para conseguir continuar justificando seu apoio, caso contrário, perderiam seus cargos, salários e todo o acesso ao aparato estatal que se torna disponível com a redução de sua práxis aos limites parlamentares, aos quais se sujeitam. Tal redução é a vulgarização de sua atuação política, sempre insuficiente para os desafios postos.

 As organizações comprometidas com o povo brasileiro, com sua emancipação e com a resolução das contradições que nos condenam à exploração de nossas forças até o esgotamento, precisam abandonar suas próprias ilusões e atuar de maneira consequente com as determinações da realidade material ou seguirão  condenadas à crescente irrelevância e perda de capacidade de penetração na classe que deveriam representar.  A necessidade da ruptura com a ordem vigente, ora gerida pela presidência de Lula e do Partido dos Trabalhadores, se impõe. Isso é resultado inequívoco de sua integração ao sistema político como horizonte de atuação, por adesão a  um projeto de governo que busca, exclusivamente, administrar a república burguesa sem jamais romper com ela e protege suas instituições sob o batido mantra da defesa da democracia – abstração inescusável quando parte de qualquer entidade com o menor apego à história e cujo compromisso ultrapasse a lógica parlamentar. 

 É indispensável analisar criticamente a própria natureza dos governos petistas e reconhecer neles seu caráter de classe, não como um projeto crivado de equívocos, mas o compreender enquanto um projeto implementado em favor das classes dirigentes e contra os trabalhadores. Faz-se, portanto, necessário reorganizar as esquerdas para além de uma atuação política vulgar, aquém das exigências extremas dos nossos tempos, se almejamos algo mais do que as muitas derrotas sofridas nas últimas décadas e as pouquíssimas vitórias pírricas que as legitimaram.

 A construção de um projeto de nação, verdadeiramente soberano, passa pela superação histórica do petismo enquanto ideologia norteadora e pela recolocação de um horizonte revolucionário de caráter socialista no debate público como condição necessária para sua realização.

Thiago Callegario, Rio de Janeiro, novembro de 2025.

Revisão por Pollyana Woida.

 

 

Fontes:

Entrevista em que Lula fala da despolitização no Brasil (Programa Mano a Mano): https://open.spotify.com/episode/54El86LwIC7QqoS3doFfnT?si=Z2bagjLEQbK72TYhd1u-RQ

https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lula-compara-aecio-neves-e-o-psdb-aos-nazistas/

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2025/10/governo-lula-ainda-busca-recursos-para-comprar-livros-didaticos-para-2026.shtml

https://abrelivros.org.br/site/apos-anunciar-compra-escalonada-de-livros-mec-consegue-verba-para-material-didatico-de-2026/

https://observatoriodoconhecimento.org.br/emendas-parlamentares-no-orcamento-das-universidades-federais/

https://www.assufrgs.org.br/2025/10/24/repasse-das-universidades-federais-sera-53-menor-em-2026-do-que-em-2014-aponta-pesquisa/

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/09/24/governo-preve-repasse-para-universidades-e-agencias-federais-53percent-menor-em-2026-do-que-em-2014.ghtml

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2010/01/04/interna_politica,164280/comparacao-com-o-governo-de-fhc-e-desfavoravel-ao-presidente-lula-quando-o-assunto-reforma-agraria.shtml

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1j82p0480lo

https://monitormercantil.com.br/petrobras-exerce-preferencia-em-apenas-1-de-7-blocos-em-oferta-pela-anp/

 

 

 

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