Pré-Sal: A Saga

A história de uma das maiores descobertas mundiais de petróleo

Marco Antônio Pinheiro Machado – 1. Ed. – Porto Alegre RS: L&PM, 2018

 

 “O Brasil é o único país petroleiro, da América Latina, onde o povo não tem consciência do que significa isso” (Nildo Ouriques)

 Pré-Sal: A Saga, livro escrito pelo experiente geólogo da Petrobrás Marco Antônio Pinheiro Machado, tem como proposta informar ao grande público do que se trata, como foi descoberto e o tamanho da importância estratégica das monumentais descobertas ocorridas nos reservatórios carbonáticos do pólo Pré-Sal da Bacia de Santos.

 [A autossuficiência em petróleo foi sempre o grande sonho perseguido pela sociedade brasileira desde as jornadas da campanha O Petróleo é Nosso, criada no seio da sociedade brasileira no final dos anos 1940, e crucial após a grande crise de 1973, quando, em represália ao apoio prestado pelos Estados Unidos a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, os países árabes, associados na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), aumentaram em 400% o preço do barril (de três para doze dólares). Nesse ano de 1973, o Brasil quase foi à bancarrota, porque produzia míseros 100 mil barris por dia e já consumia um milhão. O “milagre brasileiro” se dissolveu diante de uma dívida externa altíssima para a época, hoje módicos 24 bilhões de dólares.] (pág 27)

 E ninguém melhor que Marco para trazer luz a este assunto completamente desconhecido pelos brasileiros, afinal, trabalhou por quase de 40 anos na empresa e esteve diretamente envolvido no desbravamento da fronteira exploratória do litoral de nosso país, trabalho este que culminou em uma das maiores descobertas de reservas petrolíferas dos últimos anos e que colocou o Brasil na condição de país petroleiro, catapultando a Petrobras para as primeiras posições no ranking mundial de produção de petróleo (a empresa produziu neste segundo trimestre de 2022 um volume de 2,65 milhões de barris de óleo equivalente por dia, dos quais o Pré-Sal responde por 1,94 milhões, ou seja, 73% do valor total – para o completo descrédito da comentarista da bancada da GloboNews). 

 [A Petrobras até o momento (…) já tinha descoberto cerca de 30 bilhões de barris em reservas não provadas (que necessitam de perfuração de poços delimitatórios para serem comprovadas). E viria a descobrir outros 30 bilhões nos cinco anos seguintes, contando com o excedente da Cessão Onerosa. Quer dizer: em dez anos, descobriu o equivalente a um Tupi por ano. Um estoque capaz de abastecer sozinho o mundo por dois anos seguidos. Um belo número, mas muito longe ainda das reservas provadas do Oriente Médio e da Venezuela, 800 e 300 bi, respectivamente, segundo o BP Statistical Review of World Energy de 2017.] (pág. 216-17)

 Além dos “bastidores” envolvendo os inúmeros percalços vividos pelo corpo de geólogos, geofísicos e engenheiros ao longo dos estudos que levariam às descobertas, Marco também traz explicações de ordem mais técnica sobre a sucessão dos inúmeros processos geológicos, geofísicos, geoquímicos e bioquímicos que iriam levar à formação das acumulações e rochas do pré sal, à formação das rochas evaporíticas das camadas de sal e as rochas do pós sal. 

 [Com a perfuração e a avaliação de Tupi, abrimos definitivamente uma nova fronteira petrolífera e colocamos literalmente a mão no pré-sal. Mas o que é exatamente o pré-sal? Como o nome diz, é uma rocha formada antes do sal, no tempo, daí o prefixo. Mas do que é feito? Segundo a análise dos nossos especialistas do Cenpes, já sobre amostras de Parati, o pré-sal é constituído por um tipo de calcário denominado microbiolito, sendo micro derivado de microbial e lito, o sufixo de origem grega que significa rocha. Isto mesmo, uma rocha feita por micróbios. Na verdade, essa rocha em si é o resultado da ação metabólica de colônias onde viveram qua trilhões de micróbios, as chamadas cianobactérias. Essas colônias eram verdadeiros tapetes orgânicos, inicialmente moles e gelatinosos na sua origem. Com a passagem do tempo, esses tapetes se depositaram uns sobre os outros. Com o progressivo soterramento, foram se calcificando, endurecendo e finalmente formaram verdadeiros edifícios que, em alguns lugares, atingiram até quase mil metros de altura.] (pág.148)

 Marco, comentando um pouco de sua carreira e do modo de trabalho dentro da empresa, mostra que as grandes conquistas na Petrobras, em especial as descobertas dos grandes reservatórios na camada Pré-Sal, foram fruto não do mero acaso ou da quebra do monopólio (como os liberais mais canalhas costumam apregoar) mas sim de todo um acúmulo de experiência e qualificação do corpo técnico da empresa – que possui condições de trabalho melhores ou piores a depender dos humores e habilidades (ou inabilidades) de seu corpo gerencial e principalmente da situação política do país. 

 

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 [(…) Estrella tinha edificado um currículo fantástico na estatal. Fora um dos descobridores do campo supergigante de Majnoon, no Iraque, quando realizava missão pela Braspetro (o braço internacional da Petrobras), e chefiara por alguns anos o Cenpes na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Ele também tinha feito história em grupos de interpretação de bacias brasileiras. (…)

 Certo dia Estrella adentra na minha sala escoltado por seu estado-maior: o geólogo Paulo Mendonça e um outro geofísico. O geofisico, logo depois dos cumprimentos, de forma afoita, apontou para uma seção geológica pendurada na parede e bradou: “Olha só, Estrella, a gente recém descobriu que tudo isto aqui é sal”. Falou usando um tom entre ironia e melancolia, que deixou Paulo Mendonça visivelmente constrangido. Antes que este último fizesse uma intervenção para consertar a colocação do apressadinho, Estrella comentou de chofre: “Boa! Vamos ter um excelente selo para óleo gerado lá embaixo”. Esta atitude resume a visão do grande exploracionista.] (pág. 123-124)

 A quebra do monopólio, apesar de ter acelerado o processo que culminou na descoberta do pré sal, abriu espaço para transferência de tecnologia da Petrobras para as “parceiras” (estrangeiras como Shell, Chevron, Exxon, Equinor, Petrogal, etc) e também acabou por fatiar a posse de tais reservas (que a Petrobras cedo ou tarde chegaria a descobrir, dada sua experiência acumulada e sua notabilizada excelência na exploração da margem costeira brasileira, em especial na Bacia de Campos), reservas estas que poderiam ser 100% pertencentes à Petrobras não fosse a quebra do monopólio. A “aceleração” portanto, se deveu às obrigações que deveriam ser cumpridas junto à ANP (agência reguladora criada por FHC e inicialmente comandada por seu genro) para exploração e produção das imensas áreas sob pena de devolução das mesmas à autarquia (que posteriormente poderia leiloá-las podendo ser arrematadas pela iniciativa privada). Isso gerou a necessidade da rápida captação de recursos e endividamento da empresa. 

 [Os arautos do neoliberalismo no Brasil, essa doença infantil do capitalismo, apregoam que o pré-sal foi descoberto graças ao regime de concessão de áreas implantado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. É tão certo que a Petrobras iria chegar ao pré-sal na Bacia de Santos sozinha, por meio da perfuração do poço Tupi, como afirmar que a Terra é redonda. O que mais lamentávamos cada vez que um poço no pré-sal revelava uma coluna de óleo de centenas de metros era: “Por que não estamos 100% neste bloco? Será que dá pra dar um goodbye pra esses gringos?”. Já vimos nas páginas anteriores que parceria ou consórcios com majors em áreas de concessão são um estorvo. É claro que há um certo ganho mútuo na convivência com um sócio em uma joint venture, mas a Petrobras já vinha na ponta da tecnologia em águas profundas, ganhando prêmios internacionais mesmo antes do pré-sal. O regime de monopólio nunca engessou a empresa, pelo contrário: fez a Petrobras chegar no pré-sal rapidamente porque conhecia o chão em que pisava havia mais de cinquenta anos.] (pág. 202-203)

 O enorme volume de hidrocarbonetos presente nas jazidas (que Marco estima em uma conta conservadora em 100 bilhões de barris, que produzidos durante trinta anos – o tempo de vida útil de um campo de petróleo – poderia representar uma cifra de quase 4 trilhões de dólares) colocava o país cada dia mais perto da tão sonhada auto suficiência e, para os mais esperançosos, poderia se constituir num “passaporte para o futuro” que colocaria fim ao subdesenvolvimento do país – nada mais ingênuo de se pensar considerando que tal feito é impossível de ser realizado sem uma Petrobrás 100% estatal e de sem antes destruir as estruturas internas de dependência mantida pelas classes dominantes subservientes aos interesses imperialistas, em especial estadunidenses.

 [(…)”Deixa esses caras fazerem o que quiserem, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava […] e nós mudaremos de volta”, diz o então senador José Serra a Patrícia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Ações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, em telegrama diplomático revelado pelo Wikileaks.] (pág 317)

 É fundamental que a população brasileira conheça e saiba a importância da imensa riqueza que o Brasil comporta nos reservatórios do pré sal. Assim como é importante que a população brasileira defenda a Petrobras e exija a sua completa estatização. Uma empresa 100% estatal comprometida com os interesses do povo brasileiro na tarefa de superação da dependência e do subdesenvolvimento do país. Papel muito diferente do atual, em que a empresa – sob o comando do ultraliberal Paulo Guedes – se apresenta como um Robin Hood às avessas, sangrando o povo brasileiro para remunerar uma horda de acionistas parasitários. 

 Uma Petrobras 100% estatal é uma Petrobras a serviço do povo. Uma Petrobras 100% estatal é programa da Revolução Brasileira! 

 

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Comentários

  1. Este livro do Marco Antônio Pinheiro Machado (MAPM) se constitui no mais autêntico testemunho da história da descoberta do pré-sal. Esperamos que o Brasil volte a ter um governo “verdadeiramente patriota” para que possamos ter novamente uma Petrobrás 100% brasileira, antes que a riqueza do petróleo do pré-sal seja definitivamente perdida.

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