A Revolução Permanente e a Questão Nacional

     Por Francisco Lino de Aviz Neto [1]

 

“A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta” (Trotsky, 2007, p. 208)[2].

   A história do movimento comunista possui uma cisão irreparável que se potencializa a partir de 1924, após a morte de Vladimir Lênin e a disputa interna no Partido Comunista da URSS entre Leon Trotsky e Joseph Stalin. A saber, a defesa de Trotsky pela Revolução Permanente e de Stalin e Nikholai Bukharin pelo Socialismo em um só País. Porém, o presente artigo não tratará especificamente sobre essa disputa.

 

   Aqui, temos o intuito de evidenciar a intrínseca relação entre a Revolução Permanente e a Questão Nacional em Karl Marx e Leon Trotsky, mais especificamente, por ser fundamental o conhecimento sobre esse tema para a luta socialista no Brasil e na América Latina. Portanto, serão utilizadas algumas citações diretas para a melhor compreensão, demonstrando nas fontes primárias, isto é, nas próprias palavras dos revolucionários, a presença desses elementos.

 

   O que é, afinal, a Revolução Permanente?

 

   Leon Trotsky (1879-1940), revolucionário, militar, teórico e dirigente da classe trabalhadora russa, desenvolveu o termo, já utilizado por Marx e Engels, a partir dos ensinamentos da Revolução Russa de 1905, o prólogo das Revoluções de 1917. Tal elemento é fulcral para nossos dias, pois significa o esplêndido trabalho historiográfico de Trotsky – um dos mais fantásticos historiadores do século XX, ao desenvolver um olhar atento sobre o que ele chamava de países atrasados e/ou semicoloniais e suas possibilidades para a revolução socialista.

 

   Em seu livro A Revolução Permanente (1930), na tese II, Trotsky assim descreve como deve-se atuar o movimento comunista e a classe trabalhadora nos países atrasados, ou como preferimos, nos países subdesenvolvidos e dependentes:

“Para os países de desenvolvimento burguês retardatários e, em particular, para os países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa que a solução verdadeira e completa de suas tarefas democráticas e nacional-libertadoras só é concebível por meio da ditadura do proletariado, que assume a direção da nação oprimida” (Trotsky, 2007, p. 205).

E segue na tese III:

“Tanto a questão agrária quanto a questão nacional conferem ao campesinato (e acrescentamos, ao operariado), um papel primordial na revolução democrática. Sem a aliança entre o proletariado e o campesinato, as tarefas da revolução democrática não podem ser resolvidas, nem mesmo ser colocadas a sério. Essa aliança das duas classes, porém, só se realizará numa luta implacável contra a influência da burguesia nacional-liberal” (Trotsky, 2007, p. 206).

Ora, o que isso significa para a história e para a atualidade brasileira?

   O livro A Revolução Permanente é o tratado definitivo de Trotsky contra a concepção stalinista. O stalinismo, a partir de sua pobre teorização referente ao Socialismo em um só País, possuiu durante o século XX uma política devastadora para a luta comunista em todos os países, pois desmobilizou os movimentos revolucionários em nome das “etapas” que as nações subdesenvolvidas supostamente deveriam ultrapassar para a construção do socialismo. Aparelhada pela burocracia do PCUS, pelo Termidor contrarrevolucionário stalinista, a Internacional Comunista foi transformada em um órgão lacaio das burguesias nacionais e inimiga das classes trabalhadoras.

 

   No Brasil, tal política se evidencia pela atuação do Partido Comunista Brasileiro e suas teses por uma “revolução” de alianças entre os operários e a burguesia nacional, pelo desenvolvimento industrial do país, para o fortalecimento da União Soviética e um suposto futuro socialista para depois do paraíso. Essa estratégia, fadada ao fracasso desde seu nascimento, repetiu-se por todos os países onde a IC possuía influência; e eram muitos.

 

   Assim, Leon Trotsky confronta diretamente o stalinismo, que ignora por completo o materialismo histórico-dialético, transformando a luta socialista em instrumento teleológico etapista. Para os marxistas, porém, trata-se do contrário: todos os países do mundo estão preparados para a revolução socialista, que urge com maior intensidade justamente nos países subdesenvolvidos e periféricos, sendo essa a única saída para a miséria que o capitalismo dependente impõe às pátrias, pois, como disse Trotsky em 1938: “As premissas objetivas da revolução proletária não apenas amadureceram, como já começaram a apodrecer” (Trotsky, 2017, p. 15)[3].

 

   Assim, sistematizando, a Revolução Permanente é a compreensão da realidade e a necessidade histórica para a construção do socialismo, pois demonstra que a burguesia dos países subdesenvolvidos é incapaz de realizar a revolução democrático-burguesa, devido a fatores como a debilidade histórica e a sua dependência de capitais imperialistas. Portanto, é o proletariado, que deve conduzir a nação para a revolução, inserindo as massas na política e realizando, dialeticamente, a edificação do socialismo. Isto é, o processo de independência nacional, com uma revolução democrática dirigida pela classe trabalhadora e seu Partido revolucionário e comunista, é indissociável da revolução socialista propriamente dita. Além disso, para a vitória permanente da revolução socialista, tal processo não pode ser limitado a uma determinada nação, sendo obrigatoriamente necessária a internacionalização do socialismo, uma vez que o novo Estado operário-camponês não seria capaz de resistir contra a pressão do mundo capitalista hostil e imperialista.

 

   Como já dito, Trotsky não inventa o termo revolução permanente. Marx e Engels foram os primeiros a desenvolver uma compreensão referente a um processo semelhante, a partir de suas análises sobre as revoluções de 1848, especialmente na Alemanha.

 

   Mas onde encontramos essa referência de Karl Marx e Friedrich Engels à revolução permanente?

   Visualizamos no primeiro Manifesto do comitê central da Liga Comunista (1850), onde os revolucionários denunciam o papel da pequena burguesia, caso esta classe chegasse ao poder, por exemplo, em um processo revolucionário democrático-popular. Assim, quanto a necessidade e o caráter da revolução permanente, Marx e Engels escreveram no Manifesto:

“Mesmo que os trabalhadores alemães não possam atingir o poder e consolidar os seus interesses de classe, terão a certeza, então, de que o primeiro ato do drama revolucionário próximo ocorrerá simultaneamente com a vitória direta de sua própria classe na França e deverão estar vigilantes para isso. Mas deverão realizar por si mesmos a maior parte de sua vitória final, através de esclarecimentos quanto aos seus próprios interesses, imprimindo impulso ao seu partido independente tão cedo quanto possível, e não permitindo que essa organização independente do proletariado vá ao arrastão das frases hipócritas lançadas pela pequena burguesia democrática. Seu grito de guerra deve invariavelmente ser a “Revolução Permanente” (Marx & Engels apud Sacchetta, 2007, p. 12-13)[4]

   Estes são somente alguns exemplos. Defender a teoria da Revolução Permanente é defender o marxismo, e tal defesa, diferentemente do que setores débeis da esquerda que se reivindicam trotskistas, não significa desprezar ou colocar em segundo plano a Questão Nacional. Pelo contrário, como veremos a seguir, conferimos em Trotsky, que para a construção do socialismo na periferia capitalista, há a necessidade histórica da defesa do nacionalismo proletário, que só pode ser revolucionário e comunista!

 

   A Questão Nacional

“A abordagem abstrata do problema do nacionalismo em geral não serve para nada. É necessário distinguir entre o nacionalismo da nação opressora e o nacionalismo da nação oprimida” (Lenin, 1922)[5].

   Na citação acima, Lenin resume fundamentalmente a perspectiva marxista sobre o nacionalismo. Nos países centrais, o nacionalismo possui uma evidente carga histórica de construção do Estado Nacional, isto é, o Estado burguês. Como nos exemplos de Espanha, Portugal, Inglaterra e França – países que primeiro realizaram a acumulação primitiva do capital[6] – o nacionalismo possui duas funções cruciais: a reafirmação do Estado nação na disputa pela hegemonia capitalista na Europa e no mundo e a divisão da classe trabalhadora, que é forçada a guerrear com os trabalhadores de outros países em nome da acumulação e do lucro capitalista. A História nos ensina os conflitos entre esses países e, posteriormente, com a entrada de Alemanha e Itália, na disputa pela posição de nação opressora.

 

   Porém, assim como explicam Marx, Lenin e Trotsky, é inalienável a defesa dos marxistas às nações oprimidas, aos países subdesenvolvidos, colonizados e dependentes. Nesses países, localizados essencialmente na América Latina, na África e na Ásia, o nacionalismo proletário é “a casca externa de um bolchevismo imaturo” (Trotsky apud CMI, 2018, p. 30)[7].

 

   Tal posicionamento de Trotsky, que muitos “trotskistas” tentam ocultar, demonstra a importância histórica que o nacionalismo revolucionário possui; não estando acima das classes, mas, sendo um elemento cooptado pela classe trabalhadora, com potencial unificador do proletariado para a denúncia do jugo imperialista e para a formação da vanguarda revolucionária das condições históricas, sociais e culturais dos seus limites nacionais.

 

   Foram Marx e Engels, no fundante Manifesto do Partido Comunista, que deixavam evidentes as exigências da tomada do poder pela classe trabalhadora em seus domínios, sendo ela primeiramente, uma classe nacional:

 

“Sendo imperativo que o proletariado conquiste o domínio político, deve se erguer em uma classe nacional e se constituir em uma nação; ela própria será nacional, ainda que não no sentido burguês do termo” (Marx & Engels, 2012, p. 65)[8].

 

   Na luta contra a burguesia, portanto, o primeiro passo a ser dado pelo proletariado dever ser sua transformação em classe portadora da vontade coletiva nacional. Para tanto, é necessário o conhecimento profundo de nossos países, nossas culturas, nossas histórias e, principalmente, a compreensão de como desenvolveu-se o capitalismo nos marcos nacionais.

 

   Mas, a principal fonte aqui utilizada para demonstrar a relação intrínseca da Revolução Permanente e da Questão Nacional, evidenciando que não se trata de um ecletismo barato, mas da crucial defesa do marxismo revolucionário – não sendo o estéril produzido nas universidades e/ou em organizações sectárias –, é a publicação O Problema Nacional e as Tarefas do Partido Proletário (1935)[9], de Leon Trotsky.

 

   Em 1935, Trotsky escreveu esse texto, denunciando as resoluções da III Internacional sobre a questão nacional, que determinava uma luta anti-imperialista “acima das classes” e de conciliação do proletariado com a burguesia industrial, como já foi tratado no presente artigo.

 

   No escrito, Trotsky legitima o nacionalismo nos países dependentes e servis, por ser um elemento essencial para a transição ao socialismo, e a luta pela emancipação nacional, compreendendo que o nacionalismo revolucionário e socialista na periferia do capitalismo, conecta-se dialeticamente com a luta internacional dos trabalhadores.

 

   Vejamos o que Trotsky diz quanto as possessões sul-africanas da Grã-Bretanha, mas que podemos estender para a compreensão dos demais países subdesenvolvidos e dependentes na atualidade:

“Nenhuma revolução social – e em primeiro lugar nenhuma revolução agrária – é concebível com a manutenção da dominação do imperialismo britânico sobre o domínio sul-africano. A derrubada da dominação britânica na África do Sul é também necessária para o triunfo do socialismo tanto na África do Sul, como na própria Grã-Bretanha” (Trotsky, 1935).

   Trotsky também deixa claro o caráter ainda mais reacionário das burguesias nacionais dos países periféricos:

“Se, como se pode supor, a revolução começar primeiro na Grã-Bretanha, a burguesia inglesa será batida tanto mais rapidamente na metrópole quanto menor for o apoio que ela puder encontrar nas suas colônias e domínios, inclusive numa possessão tão importante como a África do Sul. […]. A derrubada da dominação do imperialismo britânico na África do Sul pode ser o resultado da derrota militar da Grã-Bretanha e da desagregação de seu império; neste caso, os Brancos da África do Sul podem ainda manter durante um certo período sua dominação sobre os negros” (Trotsky, 1935).

   Isto demonstra que qualquer aliança entre a classe trabalhadora nacional com a burguesia nacional contra o inimigo externo é impossível, evidenciando, mais uma vez, a estratégia contrarrevolucionária da IC e dos PCs pelo mundo, especialmente no século XX.

 

   Uma das mais belas e urgentes passagens deste texto, diz respeito à necessidade do socialismo para o mergulho profundo na cultura nacional:

“A revolução vitoriosa, inconcebível sem o despertar das massas indígenas, lhes dará, por sua vez, o que tanto lhes falta hoje: a confiança em suas próprias forças, uma consciência maior de sua personalidade, o desenvolvimento de sua cultura. Nestas condições, a República sul-africana se tornará uma república “negra”: isso não exclui, é claro, nem uma completa igualdade de direitos para os brancos, nem relações fraternais entre as duas raças (o que depende da conduta dos brancos). Mas é absolutamente evidente que a maioria esmagadora da população, libertada da dependência servil, marcará o Estado de forma determinante” (Trotsky, 1935).

   E continua:

“Na medida em que a revolução vitoriosa mudará radicalmente as relações, não apenas entre as classes, mas também entre as raças, assegurando aos negros o lugar no Estado que corresponde ao seu número, a revolução social na África do Sul terá igualmente um caráter nacional. Não temos qualquer razão para fechar os olhos sobre este aspecto da questão, ou minimizar sua importância. Ao contrário, o partido proletário deve, em palavras e atos, aberta e ousadamente, tomar nas suas mãos a resolução do problema nacional. […]. O instrumento histórico da emancipação nacional só pode ser a luta de classes” (Trotsky, 1935).

   Assim, ao tratar da África do Sul, Trotsky afirma a necessidade da Revolução Negra no país, tendo como pilares a consolidação cultural dos povos, pois só assim, se aprofundando nas raízes da nação, a liberdade e a igualdade, tanto social, quanto racial, podem ser alcançadas. Lembremo-nos do Brasil…

 

   Contra o oportunismo

   Os marxistas lutam implacavelmente contra o oportunismo. O Partido Bolchevique, durante todo o processo pré-revolucionário, esteve ao lado dos trabalhadores russos e das mais diversas nacionalidades da região, contra as agressões dos opressores grão-russos, explicando à classe que a luta nacional deve ser realizada de maneira independente e pelo socialismo. Isso demonstra que o internacionalismo em abstrato, por um discurso vago e dogmático, antimarxista, não serve a nada para a classe trabalhadora, assim como o oportunismo dos mesmos “internacionalistas” que buscam cooptar a luta anti-imperialista e nacional quando visualizam que a classe trabalhadora exige tais bandeiras.

“A política de Lênin diante das nações oprimidas não tinha, portanto, nada em comum com a dos epígonos (stalinistas). O Partido Bolchevique defendia o direito das nações oprimidas a disporem delas próprias, através dos métodos da luta de classe proletária, rejeitando claramente os blocos “anti-imperialistas” charlatanescos com os numerosos partidos “nacionais” pequeno-burgueses da Rússia czarista (o PPS, o partido de Pilsudsky na Polônia, os “dachnaki” na Armênia, os nacionalistas ucranianos, os sionistas junto aos judeus, etc.). O bolchevismo desmascarou sempre impiedosamente nesses partidos, da mesma forma com os “social-revolucionários”, sua dupla natureza e aventureirismo, e sobretudo, a mentira de sua ideologia pretensamente acima das classes” (Trotsky, 1935).

   Portanto, não se trata de um “ecletismo” ou uma “política errada” a defesa implacável da ligação intrínseca da Revolução Permanente com a Questão Nacional na periferia do sistema capitalista.

 

   No Brasil, os momentos históricos onde estivemos mais próximos da entrada das massas trabalhadoras na política foram justamente quando o nacionalismo de esquerda esteve na ordem do dia. Sem dúvidas, haviam problemas na forma como se organizou a esquerda no período do pré-1964, no entanto, não podemos deixar de valorizar a radicalização assumida por diferentes grupos naquele contexto, pois, naquele espaço, se discutia com a atenção e o comprometimento militante necessários temas como o nacionalismo revolucionário, o trabalhismo e o comunismo, embora, muitas vezes, permeados por ilusões, no caso do PCB, advinda da exportação dogmática da IC, que não respeitava as particularidades da luta pelo socialismo em cada país, especialmente na periferia capitalista, e no caso do trabalhismo, devido às suas opções em seu corpo teórico e militante, tinha uma relação com o nacionalismo que ora pendia à esquerda, ora à direita, na defesa de um capitalismo brasileiro autônomo, como uma crença no desenvolvimento no papel civilizador de uma burguesia nacional que não existe e não é possível.

 

   Essas debilidades precisam ser superadas pela ciência proletária, o marxismo, isto é, a ciência da história na perspectiva da revolução proletária, com a atenção devida e merecida para a superação do capitalismo dependente brasileiro, nossas culturas, nossos teóricos e intérpretes, em comunhão direta com a América Latina e todo o mundo, educando nossa classe, a partir de uma vanguarda armada da crítica e do conhecimento apurado sobre o Brasil, para a construção do socialismo no terreno nacional, possibilitando o desenvolvimento na arena internacional e terminando na arena mundial.

 

   Construir a Revolução Brasileira!

   Em defesa da Revolução Permanente! Em defesa do Marxismo!

   Trabalhadores de Todos os Países: uni-vos!

 

   [1] Militante da Revolução Brasileira e coordenador do Núcleo de Estudos da Revolução Brasileira.
   [2] TROTSKY, Leon. A revolução permanente. Tradução de Hermínio Sacchetta. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007, 216 p.
   [3] TROTSKY, Leon. Programa de transição para a revolução socialista: a agonia mortal do capitalismo e as tarefas da IV Internacional. Traduzido por Ana Beatriz da Costa Moreira. São Paulo: Sundermann, 2017. 114 p.
   [4] MARX & Engels. Manifesto do comitê central da Liga Comunista (1850). In.:______. TROTSKY, Leon. A revolução permanente. Tradução de Hermínio Sacchetta. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007, 216 p.
   [5] Trata-se de um escrito de Lênin chamado A Respeito do Problema das Nacionalidades ou sobre a autodeterminação. O texto está no idioma galego e foi encontrado no site Arquivo Marxista na Internet. Fonte: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1922/12/31_ga.htm.
   [6] MARX, Karl. A Chamada Acumulação Primitiva. In.:______. O Capital. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973, p. 170-189.
   [7] TROTSKY, Leon. In.: O marxismo e a luta contra ideias estranhas à classe trabalhadora. Coleção Marxismo ou Feminismo: Mulheres pelo Socialismo. Tradução: Caio Dezorzi. Corrente Marxista Internacional/Esquerda Marxista, 2018, p. 30.
   [8] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Sergio Tellaroli; posfácil de Marshall Berman; revisão técnica Ricardo Musse. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, 2012.
   [9] TROTSKY, Leon. O problema nacional e as tarefas do partido proletário. Transcição de Alexandre Linares para o Arquivo Marxista na Internt, 2005. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1935/04/20.htm>.

Comentários

  1. Vocês possuem as condições para se tornarem o grupo revolucionário capaz de organizar os trabalhadores e seus aliados na luta pelo socialismo.
    O texto que recebi é muito importante e oportuno pois Trotsk em ” A Revolução Permanente ” e em ” A Lei do desenvolvimento Desigual e Combinado ” traçou os rumos e tarefas dos revolucionários num país atrasado e subdesenvolvido.
    Lênin , numa síntese genial desta questão , irá dizer que o Capitalismo é uma corrente e que se rompeu no elo mais fraco , se opondo aos que diziam que que a Rússia por ser ser um país ainda com traços feudais não possuía as condições objetivas para a Revolução, entre eles Stalin.
    Meu filho é um dos militantes de “A Revolução Brasileira “.
    Eu fui militante da OSI nos tempos da Libelu e tenho dito a ele que tive já fui minoria e sei dos perigos , mesmo estando corretos, do isolacionismo e até do sectarismo devido a necessidade da luta político ideológica contra o revisionismo.
    Também digo que vcs estão devendo um programa mais acabado e detalhado para o curto , médio e longo prazo.
    Um abraço fraterno.

  2. Na década de 1930, existia a noção na URSS que o trotskismo era a expressão política da pequena burguesia dentro do movimento comunista, e que devido a posição da pequena burguesia em relação aos meios de produção – da mesma forma que não os possuía, também não estava esmagada pelo capital como o proletário. Essa vacilação dessa classe na sua relação com os meios de produção se traduzia como uma vacilação nos posicionamentos políticos dessa classe, que materialmente produziam interpretações marxistas retrógradas.

    Uma dessas interpretações é referente ao ‘etapismo’. Esse termo é tão fictício e vago que ele sequer existe dentro da literatura de Lenin ou de Stalin, pelo contrário, era um conceito dos mencheviques e da Segunda Internacional que pela sua própria posição de classe punham a revolução democrática como imprescindível. A verdade é que as acusações do trotskismo referente ao etapismo são frutos do total desconhecimento da própria história do movimento socialista mundial, do idealismo político, da não compreensão do que de fato o imperialismo significou para a revolução mundial e da própria literatura marxista do período, se apegando ao Revolução Permanente como uma Bíblia e não como um produto específico da época; a realidade é que o conceito sequer existe, mas existiram desenvolvimentos revolucionários históricos que a coexistência com capitalistas foi necessária, exemplo: China e Coreia para expulsarem o imperialismo japonês.

    Marx não deixou o materialismo histórico e a teoria da crise capitalista elaborada de maneira adequada e sucinta, esse papel foi cumprido por Engels após sua morte. Lenin não foi capaz de sintetizar suas colocações sobre a possibilidade da revolução proletária mundial devido a sua morte nos anos iniciais da revolução russa; existiram várias tentativas de reivindicação do pensamento de Lenin a partir de então, mas para não delongar sem necessidade, só há sentido tocar aqui no marxismo-leninismo que é a formulação oficial da União Soviética e que foi o modelo seguido pelos demais países socialistas desde então.

    Esses trechos foram retirados da obra “Fundamentos do Leninismo”:
    “Antes, costumava-se analisar as premissas da revolução proletária partindo do exame da situação econômica deste ou daquele país. Hoje, este modo de abordar o problema já não basta. Hoje, é necessário abordar a questão partindo do exame da situação econômica de todos ou da maior parte dos países, do exame da situação da economia mundial, porque os diferentes países e as diferentes economias nacionais deixaram de ser unidades autônomas, transformaram-se em elos de uma só cadeia que se chama economia mundial, porque o velho capitalismo “civilizado” se transformou em imperialismo, e o imperialismo é o sistema mundial de escravização financeira e da opressão colonial da enorme maioria da população do globo por parte de um punhado de países “avançados”. Antes, costumava-se falar da existência ou da falta de condições objetivas para a revolução proletária nos diferentes países ou, mais exatamente, neste ou naquele país desenvolvido. Hoje, este ponto-de-vista já não basta. Hoje, deve-se falar da existência das condições objetivas para a revolução era todo o sistema da economia imperialista mundial, considerado como um todo. A existência, no seio deste sistema, de alguns países de insuficiente desenvolvimento industrial não pode constituir obstáculo insuperável à revolução, se o sistema, no seu conjunto, ou melhor, uma vez que o sistema no seu conjunto já está maduro para a revolução. Antes, costumava-se falar da revolução proletária neste ou naquele país desenvolvido como de uma entidade isolada, autônoma, oposta à respectiva frente nacional do capital, como seu antípoda. Hoje, este ponto-de-vista já não basta. Hoje, deve-se falar da revolução proletária mundial, porque as diferentes frentes nacionais do capital se transformaram em elos de uma só cadeia, que se chama frente mundial do imperialismo, a que se deve opor a frente geral do movimento revolucionário de todos os países. Antes, considerava-se a revolução proletária como o resultado exclusivo do desenvolvimento interno de um dado país. Hoje, este ponto-de-vista já não basta. Hoje é preciso considerar a revolução proletária mundial sobretudo como o resultado do desenvolvimento da contradição no sistema mundial do imperialismo, como o resultado da ruptura da cadeia da frente mundial imperialista neste ou naquele país. Onde começará a revolução? Onde poderá ser rompida, em primeiro lugar, a frente do capital? Em que país? Ali, onde a indústria for mais desenvolvida, onde o proletariado constituir a maioria, onde houver mais cultura, onde houver mais democracia — costumava-se responder, antes. Não, objeta a teoria leninista da revolução, não é obrigatório que seja ali onde a indústria é mais desenvolvida, etc.. A frente do capital se romperá lá onde a cadeia do imperialismo for mais fraca, porque a revolução proletária é o resultado da ruptura da cadeia da frente imperialista mundial no seu ponto mais débil; e bem pode ocorrer que o país que iniciou a revolução, o país que rompeu a frente do capital seja do ponto-de-vista capitalista menos desenvolvido do que outros, mais desenvolvidos, que permanecem, apesar disso, no quadro do capitalismo.”

    Esta citação não possui nada de etapista, e foi retirada da obra principal da fusão entre o marxismo revolucionário e as contribuições de Lenin para ele. Nunca existiu necessidade do etapismo dentro do imperialismo porque a exportação de capital já garante a origem do proletariado nos países subjugados, a distinção que deve ser feita é que será através dos elos fracos do imperialismo que é possível o surgimento da revolução. Na primeira metade do século XX, quais eram estes locais? A própria Rússia, a China, que apesar de humilhada nunca foi conquistada, a Coreia, o Vietnã, a Mongólia. Não foi um acaso que todas as revoluções proletárias surgiram em países largamente feudais com bolsões capitalistas pequenos – o imperialismo sempre foi fraco neles, e devido as duas guerras mundiais não conseguiu se solidificar. A dificuldade de realizar a revolução na América Latina se deu devido a posição do continente como um todo em relação ao imperialismo, pois esteve integrado ao modo de produção capitalista desde sua gênese, as primeiras ferrovias foras da Europa foram construídas em terras latinas para exportarem commodities para fábricas europeias.

    A primeira mentira se passa a criar e atribuir o etapismo ao próprio Lenin e Stalin, erro este que não subsiste à escrúpulo algum, como a citação acima demonstra. A segunda mentira é confundir o que se chamou de revolução democrática com dominação da classe capitalista. A classe capitalista no começo do século XX ainda possuía algum papel histórico para cumprir, especialmente na Ásia. Entretanto, a consciência de que ela tem este papel não significa que ela é eternamente aliada do proletariado, mas pelo contrário, a luta contra o imperialismo e os resquícios feudais deveria ser levada à cabo pela classe operária, ela controlando a burguesia e não o contrário. Algum cético vai dizer que não é possível uma classe controlar outra. Não? O que é a Venezuela no momento? Ou a China? Seus proletariados são a classe dominante e controlam parcial ou completamente o Estado; os burgueses foram expropriados politicamente, mas não economicamente, porque para um país subdesenvolvido os capitalistas ainda possuem um papel histórico na consolidação das forças produtivas, que são a principal forma moderna que o imperialismo encontrou para sufocar o socialismo.

    É, na verdade, uma enorme contradição que Stalin e a União Soviética se tornaram mais internacionalistas que o próprio Trotsky. Se a III Internacional era tão congelada e reacionária politicamente e, por extensão, a URSS, por que existiram tantas revoluções bem sucedidas no mesmo período? A China de Xi Jinping coloca-se como herdeira das tradições de Lenin e Stalin, e tem como posição oficial a crítica moderada ao passado que não seja niilista ou esquerdista (algo que o trotskismo não faz), como também realçou esse papel histórico que os capitalistas tinham de desempenhar durante a Nova Democracia da década de 1950 como ainda desempenham; a Coreia põe sua própria história como herdeira da III Internacional, e que também caracterizou sua revolução nos estágios iniciais como uma coligação democrática contra o imperialismo japonês e as elites feudais yangban. Ho Chi Mihn diz que começou sua luta na busca da soberania do Vietnã, mas só encontrou condições disso ser realizado através do comunismo e da III Internacional.

    O fracasso da revolução no Brasil não se deu por causa da URSS, mas porque o próprio PCB sempre possuiu um caráter pequeno-burguês, no que a URSS considerava influência ‘astrojildista’, que colocava a necessidade de uma revolução democrática – linha da Segunda Internacional e dos Mencheviques russos, mas que diferente do papel que se desempenhou na China, Coreia, Vietnã e outros países, punha a classe dos capitalistas à frente dos proletários. Depois da segunda guerra mundial e do relatório de Khruschev e a coexistência pacífica pregada pelo revisionismo soviético, com a linha oficial da ascensão parlamentar ao socialismo foi o último golpe no PCB, garantindo que as tendências pequeno burguesas do partido se tornassem hegemônicas e fracasassem completamente no papel da revolução brasileira.

    O que este artigo e este autor acima transparecem é nada mais que o enchimento do próprio ego às custas de uma surra no socialismo real histórico, sendo esquerdista e oportunista com as realidades da construção das lutas operárias. O marxismo-leninismo coleciona vitórias ao redor do mundo, ao passo que ainda estamos para ver uma revolução produzida pelo trotskismo, por que o trotskismo é no fundo idealista – por supor que as condições para uma revolução serão as mesmas ao redor do mundo simultaneamente; derrotista, por acreditar que na época da própria Revolução Russa a única condição para a sobrevivência da vitória era caso uma revolução fosse bem sucedida no centro do capitalismo como na Alemanha e, por fim, reacionário, por supor na época da Revolução Russa que o campesinato não possuía capacidades revolucionárias, algo que Lenin e Stalin colocaram como fundamental para o sucesso da revolução e provou-se verdade no decorrer da história soviética.

    Não será construída uma revolução brasileira, ou qualquer revolução na realidade, se a única coisa que se faz é chutar o socialismo na busca de legitimar um pária da história do comunismo russo.

  3. Camarada Aviz, este teu texto é tão bom que o tenho usado como resposta aos que encontram dificuldades em entender o nacionalismo revolucionário. Mas confesso que me incomoda o fato de teres citado o Nikolai Bukharin no primeiro parágrafo, e por esse motivo venho aqui te pedir uma aula de história, da parte da história que não sei.
    Para tanto vou te dizer o que sei: Nikolai era um queridinho de Lênin, e este o chamou de “o garoto de ouro da revolução”, seu “maior teórico” e “o preferido de todo o partido”. Em fevereiro de 1937 Bukharin foi preso por ordens de Stalin e encarcerado na Lubyanka, onde aguardou por mais de um ano seu julgamento , numa solitária, onde escreveu quatro manuscritos: um livro de poesias (A transformação do mundo); um tratado sobre o socialismo (Socialismo e sua cultura); um romance autobiográfico (Como tudo começou) e uma obra teórico-filosófica bem ampla que chamou de Philosophical arabesques.
    Na iminência de ser executado pelo terror stalinista, implorou a Stalin que preservasse seus escritos, mesmo que não poupasse sua vida. Foi condenado à morte, e seus manuscritos foram preservados no arquivo pessoal de Stalin, onde foram redescobertos na década de 1980 e publicados em russo na década seguinte.
    Os derradeiros escritos de Bukharin trazem uma contribuição imensa sobre a ecologia de Marx. Nikolai compreendeu como nenhum outro o seguinte:
    “Nós só conhecemos uma ciência, a ciência da história. A história pode ser vista por dois lados: ela pode ser dividida em história da natureza e história do homem. Os dois lados, porém, não podem ser vistos como entidades independentes. Desde que o homem existe, a natureza e o homem se influenciam mutuamente.” Karl Marx e Friedrich Engels em A ideologia alemã.
    Para Bukharin a derradeira base do materialismo se encontrava na ecologia, na teoria emanada de V. I. Vernadsky, da biosfera da terra, cheia de vida infinitamente variada, desde os menores microrganismos na água, na terra e no ar, até os seres humanos.
    “Os seres humanos são tanto um produto da natureza quanto parte dela; se são dotados de uma base biológica quando sua existência social é excluída do relato (ela não pode ser abolida!); se são em si o topo da natureza e dos seus produtos; e se vivem dentro da natureza (por mais que estejam separados dela por determinadas condições sociais e históricas da vida e pelo assim chamado “meio ambiente artístico”), então o que há de surpreendente no fato de os seres humanos compartilharem do ritmo da natureza e dos seus ciclos?” Nikolai Bukharin, Philosophical Arabesques.
    Escrito na década de 1930, ignorado por mais de 60 anos, a contribuição de Bukharin – um dos principais marxistas da época e o mais ligado à ciência natural, podemos lembrar que no livro Materialismo Histórico, de 1921, ele dedica um capítulo “O equilíbrio entre a sociedade e a natureza” onde compreende e discorre sobre o metabolismo social de Marx -, a meu ver, já não pode mais ser ignorada.
    Portanto, quando você o cita no primeiro parágrafo, a mim parece desnecessário, pois contribui com o ‘apagamento’ histórico dessa faceta de Bukharin que pode ter sido – e é aqui que preciso da sua aula – um ou o motivo da prisão e condenação deste que nos legou tão grande compreensão desse aspecto tão pouco explorado de Marx.
    Grande abraço!

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