O primeiro ponto que quero chamar atenção é que precisamos entender o contexto político-econômico a que estamos submetidos para podermos intervir nele de modo eficaz. Fora disso, é navegar sem bússola.
Aqui na periferia capitalista o capital se move de forma diferente. Aqui a burguesia brasileira se aliou à burguesia imperialista e construiu um modelo de exploração chamado de “dependente periférico”, que suga nossa riqueza de múltiplas formas, seja, através da apropriação da riqueza através dos juros exorbitantes da dívida pública, que compromete 43% do orçamento do país, seja através da superexploração da força trabalho.
Todas as cidades estão submetidas a esse sistema, não podendo intervir em ações que estão fora de suas alçadas e sempre dependentes desse tipo de sistema. Se não rompermos com ele, pouco poderemos fazer a partir do município. Por isso os discursos dos políticos locais terão que mudar radicalmente. Eles pouco sabem desse sistema e pouco ajudarão o povo.
Somado a isso tudo, estamos em um momento de crise que é diferente das anteriores. Não estamos naquela época em que a crise surgia e logo se dissipava. Agora ela surge e piora a cada momento, não apresentando saída. Muitos contam com uma melhora para retornar a seus negócios e seus empregos. Não existe saída dentro desse sistema capitalista periférico. Ele não comporta saída. A cada vez que o país se desenvolve atendendo apenas a setores da grande burguesia, mas o país como um todo, se subdesenvolve.
Já nas eleições municipais de 2020, essa crise de caráter sem saída dentro desse sistema burguês, já se manifestava gritantemente. Os políticos, tanto da esquerda liberal como da direita, se igualavam no discurso, dizendo que tudo poderia ser resolvido dentro dessa ordem. Saúde, educação, infraestrutura, transporte, etc., que sempre foram deficientes durante décadas, só podem ser explicadas dentro do entendimento de como se processa esse sistema “dependente periférico”.
Os políticos estão convictos de que a representação parlamentar decadente que representa o “sistema dependente” se manterá de pé até as novas eleições. Então projetam sua política eleitoral sob essa base. É bom que tenham ciência de que se mantiverem esse discurso, quando o povo descobrir o caminho do poder, irá varrer toda essa gente medíocre para o lixo da história. De nada adianta elegermos um político competente, porque ele sempre estará submetido ao “sistema dependente” que impõe austeridade econômica aos municípios deixando apenas migalhas.
Um exemplo perverso desse sistema dependente e periférico no município de Nova Friburgo (RJ) foi o fechamento das grandes fábricas têxteis e metal-mecânico como Rendas Arp (têxtil), Fábrica Ypú (couro), Filó (têxtil), Sinimbu (têxtil), Indaço (metal-mecânico), Haga (metalurgia – recuperada pelos trabalhadores), Torrington (agulhas), Duda (plástico). Isso sem falar nas outras menores que estavam vinculadas a essas indústrias.
Essas fábricas levaram ao desemprego mais de 15.000 trabalhadores. Trouxe um prejuízo, tanto social como econômico, para o povo do município quando, na verdade, poderia trazer um enorme progresso para a região, se fôssemos um país soberano que protegesse seu parque industrial. Ninguém tinha uma explicação político-econômica para tamanha desgraça. Somente entendendo como esse modelo perverso, que veio se formando, podemos explicar a ruína dessas fábricas ao longo do tempo.
Se não bastasse os três séculos de exploração sob a base de mão-de-obra escrava que ajudou essa mesma burguesia a fazer sua acumulação primitiva de capital, tanto no brasil como no império burguês, agora estamos submetidos ao império da república burguesa, sob a base de exploração assalariada. Aliás, é bom que se diga que Nova Friburgo surgiu porque na região de Cantagalo (RJ) e redondezas, onde existiu forte exploração da mão-de-obra escrava com o plantio de café, só o traficante de escravos barão de Nova Friburgo possuía 20 fazendas nessa região. Cantagalo, à época, foi um dos maiores produtores de café do país.
A esquerda liberal insiste em afirmar que estamos sob o fascismo, que devemos combatê-lo. Na verdade, estamos sob um pseudo-fascismo. Se estivéssemos sob o fascismo, nossas liberdades estariam sendo cerceadas. Se a esquerda liberal não consegue nem combater essa direita com capa pseudo-fascista, imaginem se estivéssemos sob um verdadeiro fascismo. Cada vez mais a esquerda liberal alimenta esse sistema que devora nossas riquezas e superexplora nossa força de trabalho. A aversão à teoria e a falta de uma revisão teórica pela esquerda esconde a real “Luta de Classe” e permite que aconteça esse teatro de falsa oposição entre os que defendem a “democracia burguesa” e suas instituições (Lula e a esquerda liberal) e os que simulam ser contra o sistema burguês (direita). Em suma, todos servem ao mesmo senhor (burguesia).
O papel do “novo político”, que tem compromisso com o povo e luta pela sua emancipação, é dar fim à exploração junto com ele. Por isso, o povo produzirá sua vanguarda (novo político) porque o povo não se suicida. Se está procurando emprego de verdade, educação, saúde de qualidade e um país soberano, então, terá que ajudar a derrubar o sistema capitalista dependente e periférico.
José Luiz Rodrigues Sertã
Militante pela Revolução Brasileira no RJ